A cena seria cômica se não fosse trágica. Christopher Kachouroff, advogado de Mike Lindell naquela novela jurídica em que o dono da My Pillow processa e é processado por ter transformado a eleição americana de 2020 em palco de teorias conspiratórias, foi multado em cinco mil dólares por apresentar ao tribunal federal do Colorado uma peça recheada de citações inventadas. Não foram erros de digitação nem confusão de números de processo. Foram precedentes judiciais que jamais existiram, sentenças fantasmas paridas presumivelmente por algum chatbot ávido por agradar o usuário com respostas convincentes. A juíza Nina Wang sentenciou com a frieza de quem já viu esse filme antes: as declarações do advogado não inspiram confiança.

O episódio é apenas o sintoma visível de uma metástase muito maior. A indústria jurídica americana, que cobra honorários de quatro dígitos por hora para folhear códigos, descobriu o atalho da automação e demitiu o senso crítico no caminho. O cliente paga preço de Ferrari e recebe entrega de patinete elétrico chinês. Lindell, que já torrou fortunas defendendo sua cruzada contra urnas eletrônicas, agora descobre que parte dessa fortuna foi gasta em ficção científica disfarçada de petição. O empresário virou fiador involuntário de um experimento tecnológico que ninguém pediu permissão para conduzir no tribunal.

Há aqui uma camada ainda mais perversa que ninguém quer enxergar. O sistema judicial americano se vende como o templo da racionalidade adversarial, onde dois lados litigam armados de fatos e a verdade emerge do confronto. Mas quando uma das partes apresenta jurisprudência fabricada e o juiz precisa de semanas para descobrir a fraude, o que se revela não é a robustez do sistema, é sua fragilidade estrutural. Magistrados confiam que advogados não inventam decisões porque o pressuposto inteiro do common law repousa nessa honestidade básica. Quebre o pressuposto e o edifício inteiro range. A multa de cinco mil dólares é simbólica, quase patética, diante do estrago epistemológico causado.

Repare também no tipo de processo onde isso aconteceu. Coomer contra Lindell é uma daquelas batalhas em que ninguém sai ileso, alimentadas por anos de polarização industrial em que cada lado terceirizou a indignação para escritórios de advocacia que faturam alto enquanto o eleitorado comum assiste, paga impostos e perde a fé no que sobrou de instituição. Os escritórios faturam por hora gasta. A inteligência artificial corta horas. Logo, o incentivo financeiro silencioso é exatamente o oposto do que a ética profissional exige. Adivinhe quem ganha e quem perde nessa equação.

O caso de Kachouroff não é o primeiro nem será o último. Já houve advogados em Nova York multados por motivos idênticos, juízes britânicos perplexos com peças que citavam casos australianos imaginários, defensores públicos pegos com pareceres que mencionavam tribunais inexistentes em jurisdições inventadas. O padrão se repete com a previsibilidade de um relógio quebrado: a tecnologia chega antes da regulamentação, a regulamentação chega antes da fiscalização, a fiscalização chega quando o dano já está consumado. E no meio desse ciclo, sempre o mesmo personagem leva a pior, o cidadão comum que precisava de Justiça e recebeu literatura fantástica.

O travesseiro de Lindell promete uma noite de sono tranquilo. O sistema judicial que o defende, ao que tudo indica, dorme profundamente há tempos. A diferença é que no primeiro caso o consumidor escolhe comprar. No segundo, a conta vem embutida em cada imposto pago, em cada confiança depositada, em cada cidadão que acreditou que a toga garantiria seriedade onde hoje só existe terceirização algorítmica disfarçada de petição inicial. Cinco mil dólares de multa para quem fabricou jurisprudência. Anos de descrédito para quem ainda acreditava na palavra empenhada.

Com informações da Reason. A análise e opinião são do O Algoz.