O MQ-4C Triton, construído para enxergar tudo e não ser visto por ninguém, desapareceu. Pense na ironia com calma: uma aeronave de vigilância de última geração, projetada especificamente para monitorar vastas extensões oceânicas, rastrear frotas inteiras e nunca perder um ponto no mapa, enviou um alerta de emergência no dia 9 de abril sobre o Estreito de Ormuz e sumiu do radar. A máquina que serve para encontrar coisas precisou ser encontrada. Não foi. Esse é o nível do problema, e também é o nível do chiste.

Antes de qualquer análise geopolítica, antes de qualquer especulação sobre quem derrubou o aparelho e como, é preciso parar um instante e contemplar o número: R$ 1 bilhão. Um bilhão de reais, em moeda que o brasileiro conhece bem no bolso vazio. Esse é o valor de um único drone, de uma única missão, numa única quinta-feira. Não é o custo da frota. Não é o custo do programa. É o custo de uma aeronave não tripulada que a Marinha dos Estados Unidos perdeu como quem perde um guarda-chuva no metrô. E a pergunta que ninguém faz em voz alta, porque fazê-la seria descortês com o poder, é simples: de quem é esse dinheiro? A resposta é ainda mais simples, e muito menos confortável: é do contribuinte americano, arrancado pelo mesmo mecanismo fiscal que os economistas sérios chamam pelo nome correto de expropriação compulsória e que os jornais chamam, com mais gentileza, de imposto.

O Estreito de Ormuz não é um lugar de acidente. É um lugar de intenção. Por ali passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, num corredor marítimo que o Irã ameaça fechar com a regularidade de quem bate o punho na mesa para não esquecer que ainda existe. A presença militar americana na região é, ao mesmo tempo, legítima em seus objetivos declarados e completamente desonesta em seu financiamento, porque a proteção de rotas comerciais que beneficia primariamente empresas privadas e governos aliados é paga com dinheiro de pessoas que nunca viram o Golfo Pérsico e nunca verão. Roma financiou suas legiões com o saque das províncias conquistadas. Washington financia as suas com o salário do trabalhador do Kansas que ainda acredita que está pagando por segurança nacional. A diferença é que os romanos eram mais francos sobre o que estavam fazendo.

Agora, sobre o sumiço em si: há três possibilidades lógicas, e nenhuma delas é reconfortante. A primeira é que o drone sofreu falha mecânica e caiu no mar, o que significaria que R$ 1 bilhão de equipamento militar de ponta não é mais confiável do que um carro popular com trezentos mil quilômetros. A segunda é que foi abatido, o que abriria uma crise diplomática e militar de proporções consideráveis, porque abater um drone da Marinha americana sobre águas internacionais é um ato de guerra pelo qual o Irã já foi acusado antes, em 2019, com consequências que não passaram de tuítes raivosos. A terceira, e mais perturbadora, é que foi capturado, seja por interferência eletrônica, seja por outras tecnologias que certos adversários desenvolveram com atenção e paciência enquanto o Ocidente estava ocupado debatendo pronomes. O silêncio de Washington sobre o paradeiro da aeronave não descarta nenhuma das três hipóteses. Confirma todas elas como plausíveis, que é ainda pior.

Existe uma patologia específica dos Estados que ficam grandes demais para prestar contas. Ela não é nova. Impérios anteriores a sofreram com regularidade clínica. A burocracia militar cresce, os contratos crescem junto, os custos escalam para o absurdo, e em algum momento o aparelho se torna complexo demais para ser controlado pelo mesmo poder político que deveria controlá-lo. Perde-se um bilhão aqui, perde-se um bilhão ali, e ninguém vai preso, ninguém responde, nenhum auditor cobre a cabeça de cinza e rasga as vestes. O processo político produz audiências, as audiências produzem relatórios, os relatórios são arquivados, e o próximo contrato do próximo drone já foi assinado antes que a tinta do último relatório seque. É uma máquina que se alimenta de si mesma e não tem predador natural, porque o predador natural da incompetência institucional, que é a falência, foi removido cirurgicamente do ecossistema.

O drone sumiu. Talvez esteja no fundo do Golfo Pérsico. Talvez esteja num hangar em Teerã sendo desmontado por engenheiros muito curiosos. Talvez esteja simplesmente perdido, como R$ 1 bilhão pode se perder quando pertence a todos e, portanto, não pertence a ninguém. O que não sumiu é a conta. Essa continua bem localizada, bem registrada, bem cobrada. Só muda de mão.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.