Uma jovem está morta no Mato Grosso, e os suspeitos de matá-la são um casal de idosos. Repita a frase devagar, para que o absurdo caiba: um casal de idosos. A narrativa confortável que reserva a velhice para a sabedoria, para o arrependimento, para o cansaço natural do mal, desmonta aqui com a brutalidade de um fato simples. A crueldade não tem carteira de identidade com data de nascimento. Ela habita o coração humano desde muito antes da certidão e permanece lá até muito depois dos cabelos brancos. Quem leu os gregos sabe disso. Quem não leu, aprende agora lendo o noticiário de Mato Grosso.

O que agrava o caso, do ponto de vista moral, não é apenas o homicídio. É a tentativa de ocultação do cadáver. Matar alguém em um acesso de fúria, por mais hediondo que seja, pertence a uma categoria de crime que a tradição jurídica e filosófica reconhece como produto da paixão desordenada. Mas esconder o corpo é outra coisa. Esconder o corpo é cálculo. É a razão a serviço do mal. É a inteligência prostituída. Quem tenta ocultar um cadáver já passou pela etapa da consciência e escolheu, friamente, a mentira como estratégia de sobrevivência. Isso tem um nome técnico no direito. Tem um nome moral também, e esse nome é pior.

Existe uma ficção sentimental muito difundida nos debates sobre criminalidade no Brasil, segundo a qual o crime grave é sempre produto da pobreza, da exclusão, do desespero social. É uma hipótese que serve para muita coisa, menos para explicar o caso de idosos com tempo, lucidez e capacidade de planejar o descarte de um ser humano. A miséria social pode gerar brutalidade, isso é verdade. Mas a brutalidade fria, premeditada, calculada, a que reserva energia para esconder as provas depois de tirar uma vida, essa brota de outro lugar. Brota de um vazio moral que nenhuma política pública distribui e nenhum programa governamental preenche. Aristóteles chamaria de vício formado. O povo chama de maldade mesmo.

O Estado, como de costume, aparece depois. A polícia prende, o inquérito corre, o Ministério Público denuncia, o juiz delibera, e o processo se arrasta por anos enquanto a família da vítima carrega o peso que nenhuma sentença alivia. Não é cinismo dizer isso: é descrição precisa do que acontece. O monopólio estatal da justiça, esse arranjo que retira do cidadão o direito de se defender e promete em troca a proteção institucional, falhou aqui antes do crime, porque a jovem já estava morta quando a estrutura toda foi acionada. O contrato foi descumprido pela parte que se arvora em única detentora da força legítima. E o preço foi pago por ela, com a vida.

A investigação por feminicídio acrescenta uma camada jurídica importante, mas não deve obscurecer o núcleo do problema: uma vida foi ceifada, e as pessoas suspeitas de ceifá-la tentaram apagar os rastros com a determinação de quem sabia que havia cometido um crime grave. O envelhecimento do corpo não corresponde, automaticamente, ao amadurecimento da alma. Santo Agostinho já sabia que o coração humano é inquieto, e que essa inquietação pode se resolver tanto em direção à luz quanto na direção oposta. Neste caso, em algum ponto da vida dessas duas pessoas, a bússola interior apontou para o abismo, e uma jovem pagou por isso com o único bem que não se recupera, não se repara e não se devolve.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.