A coreografia se repete com a precisão de um relógio suíço. Surge um surto em alguma província esquecida da África subsaariana, as agências internacionais publicam mapas vermelhos, as televisões americanas exibem imagens de profissionais cobertos da cabeça aos pés em trajes amarelos, e dentro de setenta e duas horas o mesmo governo que jurava ser xenofobia inaceitável controlar fronteiras anuncia, com semblante grave, a suspensão imediata de voos. Canadá, Bahamas e Estados Unidos descobriram que soberania territorial existe, afinal, desde que o inimigo não tenha advogado nem lobby em Washington. O vírus, criatura sem CPF nem contribuição de campanha, é o único migrante que pode ser barrado sem provocar editoriais indignados no New York Times.
Convém olhar para o balcão dos lucros antes de engolir o discurso da compaixão sanitária. Cada surto desses, e foram vários nas últimas duas décadas, termina invariavelmente com contratos bilionários de pesquisa emergencial, encomendas governamentais antecipadas de vacinas ainda em fase experimental, e a transferência mansa de fundos públicos para o caixa de meia dúzia de gigantes farmacêuticas que já tinham os protótipos engavetados aguardando a deixa epidemiológica. O contribuinte canadense, que mal sabe localizar Uganda no mapa, vai pagar duas vezes. Pagará pelo aparato de controle de fronteira recém-erguido e pagará pelo frasco do imunizante que será comprado em regime de urgência, sem licitação decente, com cláusula de imunidade jurídica para o fabricante. Eis o modelo de negócios mais lucrativo já inventado pela humanidade depois da indústria bélica.
A história ensina, para quem se dá ao trabalho de lê-la sem o filtro das agências de notícias, que pestes sempre foram pretexto excelente para expansão de poder estatal. As repúblicas italianas do século XIV instituíram a quarentena oficial não tanto por amor à vida humana, mas porque o controle dos portos significava controle da arrecadação alfandegária e dos fluxos comerciais concorrentes. Os ingleses usaram a cólera no século XIX como justificativa para demolir bairros operários inteiros, expulsando os pobres em nome da higiene e liberando terreno valorizado para a especulação imobiliária burguesa. O Ebola de hoje cumpre função análoga, justifica orçamentos militares de bioteralidade que de outro modo seriam questionados no Congresso, legitima a presença de tropas americanas em pelo menos oito países africanos a pretexto de assistência humanitária, e mantém a opinião pública num estado permanente de alerta que dispensa qualquer debate sério sobre prioridades civilizatórias.
Há ainda o detalhe geopolítico mais sórdido, aquele que jamais aparecerá na manchete da CNN. As regiões africanas onde o vírus historicamente reaparece coincidem, com uma simetria perturbadora, com as zonas de disputa por cobalto, coltan, urânio e terras raras onde a China vem comprando concessões há vinte anos enquanto Washington dormia. A militarização sanitária do continente, sob o nome bonito de cooperação internacional em saúde, é a forma educada de reabrir bases logísticas sem precisar declarar contenção estratégica. O Pentágono entra de bata branca e sai de farda. O resultado, contudo, é idêntico ao das antigas canhoneiras vitorianas, presença territorial garantida, controle aéreo justificado, inteligência militar travestida de epidemiologia.
Enquanto isso, o comerciante congolês que vendia mandioca na fronteira fechou as portas e não conseguirá reabrir tão cedo. A família ganesa que economizou três anos para visitar parentes em Toronto teve a passagem cancelada sem reembolso. O médico liberiano que estudou em Londres não poderá retornar para o congresso onde apresentaria pesquisa relevante, porque seu passaporte agora vale menos que um atestado de óbito. O custo humano dessas medidas profiláticas jamais entra na planilha dos epidemiologistas oficiais, porque dor de africano comum nunca foi variável de modelo estatístico em universidade americana. Sofrem os de sempre, lucram os de sempre, e a imprensa aplaude a firmeza diplomática como se houvesse algo de heroico em barrar pobres usando jaleco.
O surto talvez passe em algumas semanas, como passaram os anteriores. As fronteiras reabrirão, os contratos farmacêuticos seguirão renovados em regime permanente, as bases militares ficarão instaladas, e ninguém perguntará para onde foram os bilhões mobilizados em pânico. A próxima cepa já está sendo aguardada nos laboratórios de planejamento estratégico, porque o medo, ao contrário do vírus, tem ciclo de vida garantido por orçamento federal. O cidadão paga, o cidadão obedece, o cidadão aplaude. E quando perceber que a quarentena virou regime, será tarde demais para reclamar do remédio.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.