Philip Lane, sentado confortavelmente em Frankfurt, concede entrevista ao Nikkei e antecipa o óbvio: em junho, o BCE vai revisar para cima sua projeção trimestral de inflação. O motivo apresentado ao público europeu, com aquela cara solene de quem descobriu a pólvora, é a guerra no Irã pressionando os preços de energia. Quer dizer, o homem que comanda a política monetária de uma área econômica de quatrocentos e cinquenta milhões de pessoas vem a público explicar que a culpa pelos preços subindo está num conflito a cinco mil quilômetros de distância. Funciona como aquele síndico que culpa o vento toda vez que o reboco cai do prédio que ele esqueceu de manter.
Olha, a inflação não é fenômeno meteorológico. Ela não brota do solo, não vem com o vento do deserto, não é praga bíblica. Inflação acontece quando se imprime moeda além daquilo que a economia real produz, e isso o BCE vem fazendo de forma sistemática desde a crise de 2008, com aceleração obscena durante a pandemia, quando os balanços do banco central inflaram como suflê esquecido no forno. A energia mais cara é gatilho, é faísca, é o pretexto que aparece convenientemente para encobrir o estrago acumulado por uma década e meia de juros negativos, compras de títulos públicos e financiamento indireto do esbanjamento fiscal dos governos da zona do euro.
Me diz uma coisa, se o problema fosse mesmo só a guerra, por que a inflação subjacente, aquela que exclui energia e alimentos justamente para isolar choques externos, segue teimosamente acima da meta há anos? Porque o problema nunca foi o petróleo do Irã. O problema é a impressora de Frankfurt, que continua girando para financiar déficits crônicos de França, Itália, Espanha e da própria Alemanha, hoje irreconhecível diante do seu passado de rigor monetário. O cidadão alemão que economizou a vida inteira vê suas poupanças derretendo enquanto o governo italiano rola sua dívida impagável com dinheiro fabricado do nada.
Seguir o dinheiro nesse arranjo é exercício revelador. Quem ganha com a inflação? O Estado endividado, que paga sua dívida com moeda desvalorizada. Os bancos, que captam barato do BCE e emprestam caro ao público. As grandes empresas com acesso privilegiado ao crédito, que se expandem comprando concorrentes menores asfixiados pelo custo do capital. E quem perde? O assalariado, cujo aumento nunca acompanha os preços. O aposentado, cuja pensão fixa derrete. O pequeno comerciante, que vê seu capital de giro evaporar. A inflação é o imposto mais covarde já inventado, porque é cobrado sem aprovação parlamentar, sem assinatura, sem rosto.
E ainda há a comédia da projeção. Esses mesmos economistas que não previram a inflação de 2021, não previram a crise de 2008, não previram a recessão de 2012, agora desfilam novas projeções com a serenidade dos profetas em conferência. Projeção de banco central tem o mesmo valor preditivo do horóscopo de jornal, com a desvantagem de custar bilhões aos contribuintes. A diferença é que o astrólogo não tem poder para impor sua leitura ao restante da sociedade; o tecnocrata sim, e impõe com a anuência de uma imprensa servil que repete os comunicados oficiais como se fossem revelação divina.
O leitor europeu que abrir o jornal amanhã vai ler que o BCE está "respondendo a pressões externas" e "ajustando expectativas com prudência". Tradução honesta: o banco central destruiu o poder de compra da moeda, sabe que destruiu, e agora prepara o terreno para a próxima rodada de justificativas enquanto a impressora segue ligada no fundo. Quando o governo controla o dinheiro, controla tudo o mais, e tudo o mais inclui sua geladeira, sua conta de luz e o futuro dos seus filhos.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.