Isabel Schnabel abriu o jogo numa entrevista à Reuters e disse, com todas as letras, que o Banco Central Europeu deveria subir juros em junho ainda que o conflito no Oriente Médio se resolvesse rapidamente. Repare na engenharia retórica, o cenário externo já não importa, o que importa é o ritual técnico de apertar parafusos numa máquina que os próprios técnicos quebraram. Vale lembrar quem é a senhora em questão, membro da diretoria executiva do mesmo BCE que, durante anos, inundou a zona do euro com liquidez a juros negativos, comprou trilhões em títulos de governos esbanjadores e tratou Mario Draghi como um messias monetário. Agora que a inflação corroeu salários, poupanças e contratos, vem a mesma turma anunciar que o remédio é mais do veneno que provocou a febre.

Veja o truque clássico. Primeiro, manda-se imprimir moeda para financiar déficits fiscais que nenhum parlamento teve coragem de cortar, depois apela-se a programas de compra de ativos para sustentar bancos e Estados gastadores, e por fim, quando os preços disparam, finge-se surpresa e culpa-se Putin, o petróleo, o clima, o supermercado, o varejo, qualquer coisa, menos a única variável que importa, a torneira monetária aberta em Frankfurt. A inflação não caiu do céu nem chegou de barco de Roterdã, ela foi fabricada em laboratório por gente que recebe salário público para fingir que entende do assunto.

O detalhe revelador está em ignorar o desfecho da guerra como variável. Se a paz se confirmar e o petróleo desabar, a pressão inflacionária externa some, e ainda assim a senhora quer apertar mais. Por quê? Porque o problema nunca foi geopolítico, foi sempre monetário, e admitir isso publicamente seria assinar a sentença de morte profissional de uma geração inteira de tecnocratas que jurou que imprimir dois trilhões era inócuo. Subir juros agora serve, antes de tudo, para salvar a reputação de quem errou, não para salvar o poder de compra de quem foi roubado.

E quem paga, na prática, essa correção de rota? O empresário pequeno que rolava dívida no cheque especial empresarial, a família que financiou apartamento na esteira do juro baixo eterno, o trabalhador cujo salário real encolheu enquanto banqueiros lucraram com o carry trade da liquidez subsidiada. Os grandes bancos europeus, esses sim, ganharam dos dois lados, ganharam quando o dinheiro era barato e ganham agora que ele encarece, porque o spread engorda, os títulos antigos rendem mais e o consumidor final aperta o cinto. Siga o dinheiro e a coreografia se revela, é sempre o mesmo balé.

O mais sinistro é a naturalidade com que se trata um comitê fechado de não eleitos decidindo o destino econômico de quatrocentos milhões de pessoas. Schnabel não foi votada por ninguém, não responde a parlamento que possa demiti-la, não enfrenta urna que a julgue. Ainda assim, decide se você vai conseguir comprar casa, se a padaria do bairro vai sobreviver, se o emprego do seu filho vai durar até o Natal. Chama-se isso de independência do banco central, mas seria mais honesto chamar pelo nome verdadeiro, despotismo técnico travestido de ciência. E o pior, um despotismo que erra sistematicamente e nunca é responsabilizado, porque o erro é sempre coletivo, anônimo, diluído em atas de cento e vinte páginas que ninguém lê.

A lição que ninguém quer aprender é a mais simples. Não existe mágica monetária, não existe almoço grátis impresso em Frankfurt, e cada euro criado do nada é um euro roubado, em silêncio, do bolso de quem ainda guarda os seus. Subir juros em junho não é coragem, é confissão tardia de um crime que continuará impune, porque os culpados continuam no comando, escrevendo os relatórios que avaliam o próprio desempenho. A inflação é o imposto que nenhum parlamento aprovou e o eleitor não consegue derrubar nas urnas.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.