Há algo de obsceno em pedir que um povo vote sobre coleta de lixo enquanto não pode decidir sobre a própria fronteira, sobre o próprio aquífero, sobre o próprio céu. As eleições municipais palestinas funcionam como aquela cerimônia colonial clássica em que o império permite ao nativo escolher o cacique da aldeia, contanto que o cacique entenda que não manda em nada que importe. Vota-se para administrar escombros. Vota-se para distribuir ruínas. O eleitor sai da cabine com a tinta no dedo e o tanque ainda na esquina, lembrando-o de que a soberania popular acaba exatamente onde começa o interesse de quem ocupa.
Convém observar quem paga essa farsa eleitoral. Doadores europeus financiam comissões, observadores internacionais embolsam diárias, ONGs ocidentais publicam relatórios solenes sobre a vibrante democracia local. É a velha indústria da boa consciência diplomática, aquela que transforma a impotência política em planilha de projeto, com indicadores, métricas e seminários em hotéis cinco estrelas em Genebra. Bruxelas manda euros, Washington manda discursos, Tel Aviv manda drones, e no fim a conta da ocupação é dividida entre o contribuinte alemão que financia a Autoridade Palestina e o contribuinte americano que financia o Iron Dome que neutraliza qualquer reação. Lucram os mesmos de sempre, os intermediários do sofrimento alheio, os fornecedores de aço, concreto, software de vigilância e consultoria humanitária.
A geografia desse voto é uma aula de cinismo. Em Jerusalém Oriental o palestino que ousar votar arrisca perder o direito de residência, num daqueles paradoxos jurídicos que só a engenharia da ocupação produz: vota e vira estrangeiro na própria casa onde nasceu o avô. Em Gaza não há eleição porque não há mais cidades inteiras, apenas crateras numeradas. Na Cisjordânia, o mapa eleitoral é recortado por estradas que palestino não pode usar, por colônias que não param de crescer, por muros que decidem se a urna fica do lado de cá ou do lado de lá. Convocar eleições nesse cenário é como pedir ao náufrago que escolha a cor do salva-vidas que ninguém vai jogar.
A história dos protetorados ensina que toda potência ocupante adora eleições controladas. O império britânico fez o mesmo no Egito, na Índia, na Mesopotâmia: instalavam parlamentos decorativos enquanto o vice-rei assinava os decretos que importavam. A França aperfeiçoou o método na Argélia, onde o voto do colono valia dez vezes o voto do nativo, até o nativo descobrir que a urna era inútil e pegar a metralhadora. O modelo atual apenas substitui o vice-rei pelo coordenador militar, o decreto pelo acordo de segurança e o colono pelo settler armado por subsídio fiscal. A fachada mudou, a engrenagem é a mesma. Quem governa de fato nunca aparece na cédula.
O verdadeiro escândalo, contudo, não está na manipulação israelense, está na cumplicidade da própria estrutura palestina oficial, transformada em terceirizada da ocupação. A Autoridade Palestina virou síndico de condomínio sitiado, recebe salário para manter a ordem dentro do gueto, prende dissidentes que incomodam o ocupante, coopera em segurança com quem demoliu a casa do eleitor na semana passada. Eleições municipais nesse contexto servem para legitimar a estrutura intermediária, dar verniz democrático ao colaboracionismo administrativo, produzir prefeitos cuja maior decisão soberana é escolher o trajeto do caminhão de lixo, desde que o trajeto não cruze zona militar, área C, perímetro de colônia ou qualquer outra das mil categorias jurídicas inventadas para dizer não.
No fim, sobra o sujeito comum, o pedreiro de Hebron, a professora de Nablus, o estudante de Belém, que caminha quilômetros entre arames até a seção eleitoral para depositar um voto que não move a fronteira um centímetro, não devolve um hectare, não traz de volta um irmão morto. Ele vota porque resistir simbolicamente ainda é resistir, porque a alternativa é o silêncio total, porque a dignidade às vezes se reduz ao gesto mínimo de aparecer onde mandaram desaparecer. É a democracia reduzida ao seu osso, sem carne, sem músculo, sem nervo. É a liturgia do impotente. E enquanto isso, em algum escritório de Ramallah, em alguma sala em Tel Aviv, em alguma embaixada em Washington, alguém assina o próximo contrato de armas, o próximo pacote de ajuda condicionada, o próximo memorando de entendimento. O eleitor sangra, o intermediário fatura, o ocupante consolida.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.