Sultan Al Jaber, ministro da Indústria e Tecnologia Avançada dos Emirados Árabes Unidos, publicou neste domingo uma resposta ao Irã que tem o mérito raro, no vocabulário diplomático, de dizer a verdade sem eufemismo: o Estreito de Ormuz nunca pertenceu ao Irã, portanto o Irã não pode fechá-lo. A frase parece óbvia. E é. O problema é que óbvio, no tablado da política internacional, costuma ser o que ninguém ousa falar em voz alta, porque a voz alta compromete, e comprometer-se custa dinheiro. Al Jaber falou. E ao falar o óbvio com a força de quem tem a cadeia produtiva do Golfo dependendo daquele corredor de água, ele expôs a natureza do blefe iraniano com uma clareza que nenhum relatório da ONU conseguiria produzir em dez reuniões de comitê.

Ormuz tem vinte e um quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ali passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Os Emirados exportam por ele, o Kuwait exporta por ele, o Iraque exporta por ele, a Arábia Saudita exporta por ele. O Irã também exporta por ele, quando as sanções permitem. Ora, quando um Estado ameaça fechar um canal pelo qual depende tanto quanto seus vizinhos, estamos diante não de uma estratégia militar, mas de um grito de alguém preso numa armadilha que ele mesmo construiu. Roma, no apogeu de seu domínio mediterrâneo, chamava aquele mar de mare nostrum, nosso mar. Mas Roma controlava o Mediterrâneo, com legiões e frotas e um aparato burocrático-militar que respaldava a pretensão. O Irã, sob sanções, com uma marinha que inspira mais dó do que medo, com uma economia que encolhe ano a ano sob o peso de uma teocracia militarizada e ineficiente, grita que o estreito é dele. A diferença entre Roma e Teerã é a diferença entre o leão que ruge porque caçou e o gato que bufa porque está com fome.

A lógica do gesto iraniano é velha como a arrogância do poder que se sente escapar pelos dedos. Quando um Estado não consegue mais seduzir nem convencer, resta intimidar. E quando a intimidação deixa de ser crível porque os meios materiais encolheram, resta o teatro da intimidação: o discurso belicoso, a ameaça grandiosa, o dedo apontado para um mapa com uma solenidade que deveria impressionar mas já não impressiona nem os próprios aliados. A ameaça de fechar Ormuz é a versão geopolítica do devedor que ameaça incendiar a casa do credor: o dano seria recíproco, o gesto é mais suicida do que coercitivo, e todo mundo na sala sabe disso, inclusive quem está ameaçando.

O que Al Jaber fez, com aquela publicação direta e sem rebarbas, foi nomear a realidade. Direito internacional não é um favor que as grandes potências concedem às pequenas: é uma gramática de convivência que existe, entre outras razões, para que nenhum Estado possa transformar sua posição geográfica em extorsão permanente sobre os demais. O Estreito de Ormuz é uma via de passagem internacional. Isso não é opinião dos Emirados, não é política externa americana, não é teoria de direito marítimo produzida em universidade europeia. É o que diz a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que o Irã, por sinal, não ratificou, o que já diz tudo sobre a relação do regime com as normas que não lhe são convenientes. Recusar a regra e depois invocar o direito de quebrá-la: eis a cartilha de quem governa pela força e não pela lei.

O petróleo que passa por Ormuz alimenta refinarias, aquece casas, move frotas de caminhões, abastece usinas. Qualquer cálculo honesto sobre o fechamento daquele estreito leva, em dias, a uma crise de abastecimento com potencial de perturbar cadeias produtivas em três continentes. O Irã sabe disso. Os Emirados sabem disso. A Casa Branca sabe disso. Por isso a ameaça é recorrente: ela não custa nada enquanto não é executada, e gera ruído suficiente para manter Teerã relevante nas manchetes e nas mesas de negociação. É um ativo de barganha barato, que o regime saca toda vez que a pressão interna aumenta ou as negociações nucleares emperram. O problema é que ativos de barganha baratos se desgastam com o uso. Cada vez que o lobo não vem, a aldeia ouve o grito com menos sobressalto. Al Jaber não respondeu apenas ao Irã. Respondeu ao cansaço coletivo de uma região inteira com a farsa que se repete.

Há uma perversidade específica na pretensão de fechar o que é de todos: ela não é apenas injusta, é ontologicamente absurda. Afirmar que o Irã pode bloquear Ormuz é como afirmar que o dono de um apartamento com janela para a rua pode proibir o tráfego na calçada. A posição geográfica confere influência, não soberania sobre o movimento alheio. Confundir as duas coisas não é um erro de interpretação jurídica. É um ato de vontade política: a tentativa deliberada de transformar presença em propriedade, de converter proximidade em direito de veto. Quando um Estado faz isso, não está reivindicando o que é seu. Está tentando roubar o que é de todos. E ladrão, quando surpreendido com a mão no bolso alheio, raramente tem a decência de concordar com o adjetivo.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.