A cena se repete com uma regularidade que deveria envergonhar qualquer ministério: quando a tragédia bate, não é o burocrata de gravata que desce ao buraco. São mergulhadores, muitos deles estrangeiros, frequentemente voluntários, que arriscam o próprio pulmão para resgatar desconhecidos numa caverna do sudeste asiático. No Laos, mais quatro aldeões foram puxados das águas turvas, juntando-se ao primeiro sobrevivente retirado na sexta. O Estado lao, regime de partido único que há décadas controla cada centímetro da vida econômica do país, chegou atrasado, como sempre chega quando a conta envolve coragem em vez de carimbo.
Vale lembrar que esta mesma região foi, nos anos sessenta e setenta, o palco da campanha de bombardeio mais intensa da história da humanidade. Cerca de dois milhões de toneladas de explosivos despejados sobre uma população camponesa que mal sabia onde ficava Washington. Os contratos foram pagos, os acionistas das fabricantes de munição enriqueceram, e até hoje crianças laosianas morrem pisando em submunições não detonadas. Aquela guerra terminou no papel; no solo, continua matando. E ninguém devolveu um centavo aos contribuintes americanos que financiaram o massacre, nem aos camponeses que perderam pernas, filhos e roças inteiras.
Agora, décadas depois, é a inundação que ameaça engolir aldeões. O governo central, ocupadíssimo administrando concessões de mineração para conglomerados chineses e financiando hidrelétricas que deslocaram dezenas de milhares de famílias, descobre que cavernas inundadas não rendem royalty. A operação de resgate, como ocorreu na vizinha Tailândia anos atrás, depende essencialmente de iniciativa privada, de mergulhadores profissionais que largaram seus empregos por conta própria, de doações de equipamento e de uma rede informal de logística que funciona porque ninguém pediu autorização ao Politburo.
É curioso o silêncio dos mesmos organismos internacionais que adoram emitir relatórios sobre direitos humanos quando há um inimigo geopolítico no banco dos réus. As Nações Unidas, que mantêm dezenas de agências consumindo orçamentos bilionários, não têm um único homem-rã treinado para situações desse tipo. As ONGs ocidentais que enchem cofres pedindo doações em nome dos pobres do mundo aparecem para a foto e somem antes da próxima maré. O que sobra, no fim, é o sujeito comum, anônimo, que mergulha porque alguém precisa mergulhar.
Há uma lição embutida em toda catástrofe natural que os engenheiros sociais detestam admitir. Sociedades que dependem do alvará para respirar morrem esperando a autorização. Sociedades onde indivíduos conseguem se organizar livremente, mover recursos sem precisar pedir benção, salvar uns aos outros sem comissão parlamentar, essas sobrevivem. O resgate no Laos é, ironicamente, uma demonstração viva de que a cooperação humana espontânea funciona apesar do Estado, raramente por causa dele. Cada minuto economizado naquela caverna foi um minuto que não passou na fila de algum comitê.
Quando os sobreviventes finalmente reencontrarem suas famílias, haverá lágrimas legítimas e abraços que nenhuma diplomacia produz. Em seguida, virá a comitiva oficial, o discurso pronto, a faixa inaugurando algum centro comunitário pintado de fresco para a ocasião. O mergulhador que arriscou a vida voltará para casa sem condecoração, sem pensão, sem holofote. E o aldeão resgatado descobrirá, semanas depois, que precisa pagar imposto sobre a doação que recebeu. O Estado nunca chega na hora do perigo, mas nunca falta na hora do boleto.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.