Lauren Hemp marcou o gol solitário que deu à Inglaterra a vitória sobre a Espanha e a liderança do grupo nas eliminatórias para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Keira Walsh usou a braçadeira de capitã na ausência de Leah Williamson, ainda em recuperação. Até aqui, fato esportivo puro, resultado de campo, mérito atlético. Mas nenhum evento esportivo de seleções nacionais existe no vácuo. Existe dentro de uma estrutura monumental de dinheiro público, isenções fiscais, contratos de transmissão negociados em gabinetes e uma máquina de relações públicas estatal que transforma vinte e duas jogadoras em símbolos de grandeza nacional. O contribuinte britânico que mal consegue pagar o aquecimento da própria casa no inverno financia, via impostos canalizados para a Football Association e programas governamentais de "desenvolvimento esportivo", a preparação dessas atletas para que ministros possam posar sorridentes ao lado do troféu. O padrão é velho como o Coliseu romano: o Estado sempre soube que pão e circo custam menos que resolver problemas reais.

A FIFA, essa entidade supranacional que nenhum eleitor de nenhum país jamais votou para criar, opera como um governo paralelo com orçamento de multinacional e imunidade de embaixada. Decide onde serão as Copas, movimenta bilhões em contratos de infraestrutura, patrocínio e direitos de imagem, e distribui as migalhas em "programas de desenvolvimento" que servem principalmente para comprar lealdade de federações menores. A Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil não será diferente. Estádios serão reformados com dinheiro público, promessas de "legado" serão feitas com a mesma convicção com que foram feitas em 2014, e quando as câmeras forem embora, o contribuinte ficará com a conta e o elefante branco. O futebol feminino cresceu enormemente em qualidade e audiência nas últimas décadas, e isso é mérito exclusivo das atletas que se dedicaram apesar de décadas de descaso. Mas o aparato estatal e corporativo que agora abraça a modalidade não o faz por justiça ou igualdade; faz porque descobriu um novo mercado, uma nova fonte de receita, um novo veículo de propaganda. Quando algo se torna lucrativo, o Estado aparece para regular, tributar e reivindicar o crédito.

Observe a narrativa construída em torno dessa partida. A Inglaterra, campeã europeia, líder do grupo, símbolo de resiliência. A ausência de Williamson vira drama de superação. O gol de Hemp vira momento histórico. Tudo embalado para consumo emocional imediato, para que o espectador sinta orgulho de uma bandeira e esqueça que sob essa mesma bandeira seu governo aumentou impostos, expandiu vigilância e reduziu liberdades civis no último ano. Não é coincidência que regimes de toda natureza, de democracias liberais a ditaduras explícitas, investem pesadamente em esporte de seleções. O mecanismo é idêntico: criar uma identidade coletiva artificial que substitua o pensamento individual. Quando você torce pela "sua" seleção, você aceita inconscientemente a premissa de que o Estado que a representa também é "seu", também age em "seu" nome, também merece "sua" lealdade. O nacionalismo esportivo é o cavalo de Troia mais eficiente já inventado.

A Espanha, por sua vez, chega a esse jogo carregando o peso de um escândalo que revelou ao mundo o que o futebol feminino sempre soube: as estruturas de poder que controlam o esporte tratam as atletas como ativos descartáveis. O caso Rubiales não foi anomalia; foi sintoma. E a resposta institucional, como sempre, foi cosmética. Trocaram-se rostos, manteve-se a engrenagem. As jogadoras espanholas que ousaram se rebelar pagaram preço profissional e pessoal, enquanto os burocratas do futebol reciclaram suas carreiras em outros cargos igualmente bem remunerados e igualmente inúteis. O poder nunca pune a si mesmo; apenas se reorganiza.

No fim, o placar de 1 a 0 é o que menos importa nessa equação. O que importa é quanto custou esse gol ao cidadão comum, quanto lucrou o aparato corporativo-estatal que orbita o esporte, e quantas pessoas assistiram ao jogo genuinamente felizes sem perceber que estavam consumindo o produto mais sofisticado já criado pela aliança entre poder político e capital concentrado: a ilusão de pertencimento. A bola rola, os contratos são assinados nos bastidores, e o torcedor paga a entrada, o pay-per-view, o imposto que financia o estádio e o salário do burocrata da federação. Quatro vezes. Pelo mesmo gol.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.