Chegou a temporada dos brinquedos novos em Brasília. O Exército anuncia, com aquela pompa de desfile de sete de setembro, que agora opera blindados Centauro II BR com sensores térmicos, artilharia digitalmente conectada, o tal SISFRON vigiando dezesseis mil quilômetros de fronteira, o SISDAC guardando os céus, os foguetes ASTROS engatilhados e uma divisão de defesa cibernética pronta para hackear sabe-se lá quem. A imprensa oficial bate palma, o especialista de plantão fala em soberania, e o cidadão que acabou de ter o celular arrancado no farol da esquina é convidado a se emocionar com a fotografia do tanque italiano rodando na caatinga.

Convém, antes da lágrima patriótica, fazer a pergunta que ninguém faz nessas reportagens de vitrine. Quem vende? A resposta, quando se puxa o fio, sempre desemboca no mesmo endereço. Consórcio ítalo brasileiro para o Centauro, contrato de bilhões. Fornecedores nacionais capitalizados por décadas de emenda parlamentar e crédito subsidiado do banco público. Rede de radares que exige manutenção eterna, upgrade eterno, sobressalente eterno, tudo comprado de um cardápio muito curto de empresas que curiosamente sempre estão à disposição na hora do jantar oficial. É a mesma lógica do mercado de remédio hospitalar, só que com camuflagem e hino de fundo.

A defesa da pátria, quando examinada de perto, tem o mesmo comportamento de qualquer outro programa estatal. Cresce, incha, se justifica sozinha, e ai de quem propuser cortar um centavo, porque na hora vira traidor da nação. A ameaça externa, aliás, é sempre suficientemente vaga para caber qualquer orçamento e suficientemente distante para nunca precisar entregar resultado verificável. Ninguém invadiu, logo funcionou. É o mesmo silogismo do curandeiro que vende amuleto contra tigre em Copacabana e cobra pela ausência de tigre. Se o tigre não aparecer, o amuleto está vendendo bem.

E enquanto a força terrestre incorpora tecnologia de grande potência, o traficante de Manaus tem drone melhor que o pelotão que deveria caçá lo, o garimpo ilegal em Roraima opera com escolta armada em terra que oficialmente pertence à União, e a fronteira com o Paraguai continua sendo o corredor onde entra tudo que se compra nas lojinhas da rua vinte e cinco de março. O SISFRON custa fortuna, mas o comércio ilegal segue funcionando com previsibilidade de horário de banco. Alguma coisa nesse silogismo está furada, e não é a premissa maior.

Há ainda o detalhe menor, quase constrangedor, de que exército aparelhado no país tropical historicamente não terminou usado contra invasor estrangeiro. Terminou usado contra o próprio pagador da conta, em nome de algum consenso patriótico do momento. O contribuinte financia o cassetete que vai lhe descer na cabeça na próxima crise institucional, e é ensinado a chamar isso de investimento em defesa. Poucos esquemas comerciais no mundo conseguem tamanha margem de lucro com tamanha aprovação da vítima.

Fica então a conta, para quem ainda faz conta. Bilhões drenados do trabalho alheio, transferidos via imposto compulsório para meia dúzia de fornecedores muito bem relacionados, sob a promessa de proteger uma fronteira que segue aberta e um povo que segue desarmado. O rei aparece de farda nova, salta em cima do blindado importado, sorri para o fotógrafo, e diz que agora sim o Brasil entrou no clube das grandes potências. O povo aplaude, porque foi treinado para aplaudir. E o próximo boleto do imposto de renda, esse, chega pontualmente, sem sensor térmico, sem foguete guiado, sem defesa cibernética, direto na jugular.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.