A cena é antiga e conhecida de quem pisa em curral: o boi lacrimejando, o olho embranquecido, a córnea derretendo como cera de vela esquecida ao sol. Chamam de "mal do olho", nome quase folclórico para uma tragédia econômica que há décadas corrói o patrimônio de quem produz proteína neste país. Agora, num laboratório, descobriram que havia uma segunda bactéria envolvida no crime, batizada de Moraxella tarda. Tarda no nome, tardia na descoberta, tardia na resposta. Enquanto isso, o pecuarista amargava perdas silenciosas, pagava veterinário, comprava colírio, aplicava antibiótico no chute e via a arroba escapar pelo lacrimejar do animal.
Convém perguntar, com aquela malícia que só a experiência ensina, por que uma doença que assola rebanhos inteiros levou tanto tempo para ter seu verdadeiro culpado identificado. A resposta é constrangedora e recorrente: pesquisa agropecuária no Brasil vive de balcão estatal, e balcão estatal atende primeiro quem grita mais alto no orçamento, não quem sangra no pasto. Bilhões escoam anualmente para institutos, fundações, universidades e agências que produzem congressos, seminários, viagens internacionais e relatórios com capa colorida, enquanto o produtor rural, esse contribuinte involuntário de mil taxas, espera décadas por uma vacina que resolva um problema trivial em qualquer país sério.
A lógica é impiedosa quando aplicada sem cerimônia. Se o dinheiro do imposto sustenta a máquina que deveria pesquisar, e se a máquina que pesquisa entrega solução tardia para um problema antigo, então o dinheiro está sendo mal empregado, ou está sendo empregado para outra coisa que não a solução do problema. Não há terceira hipótese. As coisas são o que são, não o que a propaganda ministerial jura que elas são num vídeo institucional com trilha épica de fundo. Enquanto se financiam cátedras de gênero na sociologia do rebanho, o rebanho continua cego.
Agora que a bactéria foi nomeada, prepare o bolso. Virá a vacina, virá a patente, virá o contrato milionário com o laboratório amigo, virá o programa federal de imunização compulsória financiado por mais uma contribuição embutida na nota fiscal do sal mineral. O produtor pagará três vezes: pagou pela pesquisa que descobriu, pagará pela vacina que aplicará, e pagará pela fiscalização que virá conferir se ele aplicou. A ceratoconjuntivite do boi vira ceratoconjuntivite do bolso, e a única cegueira que nunca se cura é a de quem acredita que o Estado descobriu isso por amor à vaca.
Há uma ironia deliciosa em ver a burocracia sanitária correr para se apresentar como salvadora, depois de anos ignorando o problema. É o velho truque do incendiário travestido de bombeiro: primeiro deixa a chama consumir a fazenda, depois chega com o caminhão pipa cobrando a diária. E o produtor, exausto, agradece, porque o gado precisa enxergar para pastar, e pastar para render, e render para pagar os impostos que sustentam quem chegou atrasado. O ciclo se fecha com perfeição de silogismo mal-intencionado.
Que se comemore a descoberta, pois ciência boa é ciência que resolve problema real. Mas que se comemore também com a desconfiança de quem já viu esse filme rodar em outros setores: da soja ao leite, da laranja ao frango, sempre que aparece uma solução vinda do balcão oficial, aparece junto um novo mecanismo de extração de renda do produtor. Quem paga a conta é sempre o mesmo sujeito de bota suja e mão calejada. Quem recebe o troféu, o cargo e o discurso é sempre o mesmo sujeito de terno engomado em Brasília. A bactéria mudou de nome; o parasita, não.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.