No primeiro de junho, milhões de etíopes serão convocados a participar de uma encenação cujo desfecho foi roteirizado há meses. O Partido da Prosperidade, máquina política costurada por Abiy Ahmed a partir dos escombros da antiga coalizão que governou o país por quase três décadas, caminha para uma vitória esmagadora que não decorre de virtude eleitoral, mas da combinação cirúrgica entre fragmentação opositora, intimidação em zonas de conflito e o velho truque de transformar a urna em selo de borracha. Quem segura o monopólio da violência marca as regras do jogo, escolhe os jogadores e ainda apita a partida. O resto é cerimônia.

Vale lembrar quem é o protagonista deste teatro. Em 2019, o mesmo Abiy Ahmed recebia o Nobel da Paz em Oslo, saudado como reformador iluminado que pacificara a fronteira com a Eritreia. Menos de dois anos depois, comandava uma das guerras civis mais sangrentas do século vinte e um na região do Tigré, com estimativas de até seiscentas mil mortes, fome usada como arma e relatos sistemáticos de violência sexual atribuídos a forças do próprio governo e a aliados eritreus. O laureado da paz virou gestor da fome. A história já viu esse filme antes, do laureado europeu que prometia desarmamento e despachava tropas, ao estadista africano que aceitava medalhas em Estocolmo enquanto comprava helicópteros em Moscou. O prêmio não santifica, apenas anestesia a crítica internacional.

Siga o rastro do dinheiro e a fumaça do incenso humanitário se dissipa. Adis Abeba recebeu, ao longo da última década, bilhões em empréstimos do Banco Mundial, do FMI, da União Europeia e infusões maciças de capital chinês via Belt and Road, materializadas em ferrovias, parques industriais e barragens. O Grande Renascimento, hidrelétrica no Nilo Azul que enfurece o Egito, custou perto de cinco bilhões de dólares e foi erguido com aço e crédito que nenhum camponês etíope verá retornar. Enquanto a comunidade internacional finge cobrar transparência, contratos de armamento turcos, emiratenses e iranianos abasteceram a guerra do Tigré sob silêncio diplomático. Há sempre um banco por trás, uma fábrica de drones no meio e um cofre soberano financiando o luto alheio.

A oposição genuína foi triturada pela engrenagem habitual dos regimes que se vestem de república. A Frente Popular de Libertação do Tigré, antiga hegemonia agora reduzida a pó político, está fora do jogo. Lideranças oromos, do mesmo grupo étnico de Abiy, apodrecem em prisões ou foram assassinadas em circunstâncias convenientes. Partidos que sobraram disputam migalhas em circunscrições onde milícias amharas e governistas controlam o trânsito de eleitores. Em Amhara, onde o exército luta contra a milícia Fano que ontem era aliada, votar pode ser um exercício de equilibrismo entre balas. Em Oromia, o Exército de Libertação Oromo segue ativo. Em vastas regiões, o eleitor escolherá entre o medo de ir à urna e o medo de não ir. Chamar isso de democracia exige um vocabulário tão elástico que ofende a linguagem.

Quem paga a conta dessa farsa é sempre o mesmo. O agricultor de Tigré que viu o boi confiscado, o comerciante de Bahir Dar que perdeu a loja num toque de recolher, a mãe somali que enterra o filho recrutado à força, o jovem oromo que escolhe o exílio porque a urbe virou armadilha. Enquanto isso, capitais ocidentais discutem em comunicados se devem chamar o processo de imperfeito ou desafiador, eufemismos engomados para fraude consentida. O cálculo é geopolítico, não moral. A Etiópia é a segunda nação mais populosa do continente, controla a torneira do Nilo, faz fronteira com o Mar Vermelho via aliança eritreia e equilibra interesses chineses, golfistas e americanos numa coreografia que ninguém quer perturbar. Estabilidade autoritária custa menos diplomaticamente do que liberdade caótica.

No primeiro de junho, a aritmética dirá que Abiy venceu. A realidade dirá que ninguém votou de fato. E os mesmos chanceleres que aplaudiram o Nobel emitirão notas mornas parabenizando o povo etíope pelo exercício cívico, antes de assinar o próximo pacote de cooperação técnica. A urna virou batismo de tiranos, e o silêncio internacional, a água benta. Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.