Repare na sequência dos fatos, porque ela é eloquente. De um lado, comunicados oficiais celebrando progressos diplomáticos, sinalizações de mesa de negociação, declarações pomposas sobre canais abertos. De outro, na calada da noite, mísseis cruzando o céu do Oriente Médio em direção a bases iranianas. Quer dizer, ou os negociadores americanos não conversam entre si, ou alguém está fazendo de conta que conversa enquanto outro alguém aperta o botão. As duas hipóteses são constrangedoras, e nenhuma delas é acidente.
Toda guerra moderna tem um detalhe que os jornais raramente investigam com afinco: ela é caríssima e alguém recebe esse dinheiro. Cada míssil disparado é um cheque assinado pelo contribuinte americano e depositado na conta de um punhado bem específico de empreiteiras militares cujos balanços trimestrais correlacionam com inquietante precisão aos ciclos de tensão geopolítica. Não é teoria conspiratória, é demonstrativo de resultados publicado em bolsa. Siga o dinheiro e você encontrará lobistas, ex-generais reciclados em conselhos de administração, e congressistas cujos distritos abrigam, vejam só que coincidência, fábricas de armamento.
O que se vê é o ataque, a manchete, o discurso de firmeza, a bandeira tremulando enquanto o âncora do telejornal adota o tom solene. O que não se vê é a fatura. Cada dólar gasto em explodir uma base no deserto persa é um dólar que não foi gasto em escolas, em estradas, em devolução de imposto, ou simplesmente em deixar o cidadão americano em paz com o próprio salário. Mas essa parte não rende capa de revista. A parte que rende é a do herói de Washington defendendo a civilização ocidental com dinheiro alheio e sangue alheio.
Há ainda o capítulo das negociações que servem de cortina. Olha, ninguém negocia de boa fé enquanto carrega a baioneta nas costas. Ou a diplomacia é instrumento sério para evitar o pior, ou é fachada para ganhar tempo até o próximo bombardeio. Quando os dois acontecem simultaneamente, a conclusão lógica é inescapável: a negociação era encenação. E encenação cara, porque diplomatas em jatinhos oficiais não saem barato, e ainda assim o resultado prático foi exatamente o que teria acontecido sem nenhuma conversa.
O Irã, convém lembrar, não é um cordeiro. É um regime teocrático autoritário com gosto pronunciado por financiar milícias e perseguir dissidentes. Mas isso não autoriza Washington a se comportar como xerife planetário usando dinheiro que tirou da carteira de uma enfermeira em Ohio. A política externa intervencionista tem essa peculiaridade encantadora: socializa os custos entre todos os contribuintes e privatiza os lucros entre um clube fechadíssimo de fornecedores oficiais. É o capitalismo de compadrio em sua versão pirotécnica.
E o cidadão comum, esse personagem que paga a conta e nunca é consultado, vai descobrir nos próximos meses que o preço do barril subiu, que a inflação importada bateu na padaria, que o dólar oscilou, que as bolsas tremeram. Tudo isso porque alguém, num gabinete climatizado a milhares de quilômetros, decidiu que negociar e bombardear ao mesmo tempo era boa estratégia. Não é estratégia, é teatro. E teatro de guerra é o único em que a plateia paga ingresso obrigatório, mesmo quando preferia ficar em casa.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.