A presidente da Comissão Europeia veio a público pedir diplomacia para encerrar a guerra contra o Irã, e o gesto teria alguma nobreza se não chegasse com o atraso conveniente de quem espera o teatro de operações esquentar antes de descobrir a virtude do diálogo. Bruxelas, que durante meses chancelou sanções, congelou ativos e fechou os olhos para escaladas militares de aliados estratégicos, agora apela ao bom senso como o incendiário que pede calma depois de jogar o fósforo. A diplomacia europeia segue um padrão antigo: chega sempre tarde, sempre depois que os contratos de armamento foram renovados, sempre depois que o preço do barril subiu o suficiente para justificar o discurso.

Convém olhar para a contabilidade antes de escutar o sermão. As exportações europeias de material bélico para o Oriente Médio bateram recordes sucessivos nos últimos três anos, com Alemanha, França e Itália figurando no pódio dos fornecedores. Os mesmos governos que agora invocam o direito internacional assinaram licenças de exportação que alimentam exatamente o conflito que dizem lamentar. É um modelo de negócio cínico e perfeitamente desenhado: vende-se o aço pela manhã, lamenta-se o sangue à tarde, e à noite anuncia-se um pacote de ajuda humanitária financiado pelo contribuinte europeu, que paga três vezes pela mesma guerra sem nunca ter sido consultado.

O Irã, do seu lado, não é vítima inocente em nenhum sentido moral relevante; é um Estado teocrático que reprime sua própria população, financia milícias e usa o confronto externo como anestésico interno. Mas reconhecer isso não obriga ninguém a aplaudir bombardeios cirúrgicos que de cirúrgicos não têm nada, ou a engolir a tese de que destruir instalações nucleares por meios militares produz estabilidade. A história recente do próprio Oriente Médio é um cemitério dessa retórica. Iraque foi invadido para eliminar armas que nunca existiram, e o país virou laboratório de milícias. Líbia foi libertada de um tirano e entregue a leilões de escravos em praça pública. Síria foi salva pela diplomacia das potências e hoje exporta refugiados como antes exportava algodão. Cada intervenção produziu o caos seguinte, e cada caos produziu o próximo contrato.

O que ninguém em Bruxelas, Washington ou Tel Aviv quer dizer em voz alta é que a guerra atual já cumpriu sua função econômica primária antes mesmo de ser oficialmente nomeada. Ações da indústria de defesa subiram, fundos soberanos do Golfo aumentaram aportes em ativos americanos, refinarias europeias renegociaram contratos de longo prazo a preços convenientes, e o gás natural liquefeito do outro lado do Atlântico encontrou clientes desesperados pagando o que for. O cidadão alemão que vai ao posto, o italiano que recebe a conta de aquecimento, o francês que vê o pão subir, esses pagam a fatura de uma política externa que não votaram, em nome de uma segurança que não receberam, contra um inimigo que não escolheram.

O apelo por diplomacia, portanto, deve ser lido como o que de fato é: um gesto de relações públicas para uma plateia doméstica cansada, não uma virada estratégica. Diplomacia de verdade teria significado não vender as armas, não congelar os ativos, não embarcar em sanções extraterritoriais que matam mais civis pela fome do que qualquer míssil pela explosão. Diplomacia de verdade exigiria reconhecer que bloqueios financeiros são atos de guerra disfarçados de planilha, e que o embargo é apenas o cerco medieval com tradução jurídica moderna. O resto é encenação para o telejornal das oito.

No fim, sobra o de sempre. O acionista soma dividendos, o burocrata soma viagens diplomáticas, o jornalista soma manchetes, e o pai de família em Teerã, em Tel Aviv, em Beirute ou em Bruxelas soma boletos que não param de chegar. A guerra é vendida como tragédia inevitável, mas inevitável ela só é para quem não está faturando com ela. Para esses, é apenas o trimestre fiscal vestido de catástrofe.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.