Mais uma segunda-feira, mais um suspiro coletivo nos pregões europeus diante da notícia de que o Irã teria oferecido uma proposta de paz aos Estados Unidos. O DAX respira, o FTSE acena, o CAC se anima, e os analistas de plantão repetem o mantra de que a estabilidade geopolítica é boa para os negócios. É, sim, é boa para alguns negócios. Para outros, é catástrofe. A pergunta que ninguém faz nas mesas de operação é qual lado da gangorra está sendo lubrificado pelo anúncio, porque toda vez que um diplomata abre a boca para falar em paz, alguém em Bethesda ou em algum subúrbio de Tel Aviv está conferindo o livro de ordens com um nó na garganta.
O detalhe que escapa ao noticiário é a coreografia. Há meses as conversas estavam paralisadas, com Washington exigindo concessões nucleares que sabia serem inaceitáveis e Teerã contra-ofertando termos que sabia serem inegociáveis. O teatro da diplomacia se sustenta justamente nessa cumplicidade do impasse, porque o impasse alimenta o orçamento. Cada rodada fracassada justifica mais uma fragata no Golfo, mais um carregamento de mísseis para os xeiques do outro lado do estreito, mais uma tranche de assistência militar carimbada como urgente. A indústria que vende a solução é a mesma que precifica o problema, e o contribuinte americano, europeu, brasileiro, paga as duas pontas sem nunca enxergar a fatura consolidada.
Vale lembrar que o Irã sob sanções é um laboratório do que acontece quando o Ocidente decide brincar de bloqueio econômico. A inflação devora o salário do operário em Isfahan, o aposentado em Tabriz vê sua poupança virar pó, o comerciante em Shiraz fecha as portas porque não consegue importar peças. Nada disso atinge a casta dos guardiões da revolução, que controla os contrabandos, fatura nas brechas e sai mais rica do cerco do que entrou. É o padrão histórico desde os bloqueios continentais do século dezenove: a sanção fortalece o regime que pretende derrubar e arruína o povo que pretende libertar. Quem estudou o embargo a Cuba sabe disso há sessenta anos. Quem viu o Iraque dos anos noventa sabe que meio milhão de crianças morreram para que um ditador permanecesse no palácio.
A proposta iraniana, seja ela qual for, vai passar pelo crivo de três lobbies em Washington antes mesmo de chegar ao Salão Oval. O lobby da defesa, que precisa do espantalho persa para justificar o orçamento de oitocentos bilhões anuais. O lobby pró-Israel, que opera com a precisão de um relógio suíço para sabotar qualquer aproximação que reduza a centralidade estratégica do aliado no Mediterrâneo oriental. E o lobby do petróleo, que oscila conforme o preço do barril, porque a paz com o Irã significa quatro milhões de barris a mais no mercado global e margens menores para Houston, Riad e Moscou. A bolsa que sobe hoje em Frankfurt já precificou qual desses lobbies vai vencer, e o cidadão alemão que paga a conta da fatura energética está apenas servindo de vértebra dessa engrenagem.
O cinismo do mercado tem uma honestidade que falta ao jornalismo. O pregão não finge se importar com vidas humanas, ele apenas calcula probabilidades de fluxo. Se a paz chega, o gás natural cai, o frete naval no Estreito de Ormuz despenca, as seguradoras marítimas reduzem prêmios e o consumidor europeu eventualmente sente algum alívio na conta de luz. Se a paz fracassa, os contratos futuros de defesa renovam, os estaleiros do Mar do Norte recebem novas encomendas e o complexo bancário que financia a reconstrução de tudo que ainda nem foi destruído continua emitindo títulos com lastro em otimismo. Os dois cenários são lucrativos. Para o capital, não existe guerra ruim, existe guerra mal posicionada na carteira.
O que esse rali matinal nos índices europeus realmente revela é a obscenidade silenciosa do nosso tempo: transformamos a possibilidade de não matar pessoas em um dado de variação percentual, em um indicador macro a ser arbitrado entre o almoço e o fechamento. O persa comum, o soldado americano em Bahrein, a família libanesa que dorme com um olho aberto, todos eles aparecem na planilha apenas como variável residual. Quando o título da manchete diz que os mercados começam a semana em alta porque há esperança de paz, leia novamente. O que está em alta é a expectativa de que o Estado, o militar e o financeiro encontrem uma nova maneira de cobrar pela mesma mentira. A paz, quando vier, virá com fatura. E o pagador, como sempre, não foi consultado.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.