O Nikkei rompeu os 65 mil pontos pela primeira vez na história, as bolsas asiáticas subiram em bloco, e os futuros europeus abriram a segunda-feira no verde. O pretexto oficial é o avanço das conversações entre Washington e Teerã, como se duas décadas de embargos, assassinatos seletivos e sabotagens nucleares pudessem ser dissolvidas num aperto de mãos coreografado para o noticiário das nove. O mercado, esse animal cínico e infalível em farejar lucro, sabe ler entre as linhas: toda vez que potências fingem reconciliação, há contratos sendo assinados na sala dos fundos.
Vale lembrar o que sustenta esses números siderais. O Banco do Japão segura juros artificialmente baixos há mais de uma década, comprando ativos numa escala que faria corar qualquer banqueiro central do século passado. Cada ponto do Nikkei é, em parte considerável, papel impresso travestido de produtividade. O fenômeno se replica em Frankfurt, em Paris, em Nova York. As bolsas não sobem porque a economia real prospera; sobem porque o dinheiro fabricado precisa achar algum lugar para morar, e ações são o cemitério mais elegante. Quem entende disso vende no topo. Quem não entende é o aposentado japonês que viu seu iene perder um terço do poder de compra em três anos.
Quanto à diplomacia americano-iraniana, convém olhar o histórico antes de aplaudir. Cada rodada de negociação dos últimos quarenta anos terminou ou em sanções renovadas, ou em pretextos para nova escalada, ou em algum acordo de fachada que serviu apenas para reorganizar as cadeias de fornecimento de petróleo no Golfo Pérsico. Quando Teerã e Washington conversam, quem ganha são as petroleiras que precisam saber se devem estocar ou liquidar, os bancos que intermediam transações sob mesa, e os fabricantes de armamento dos dois lados, porque sim, o Irã também tem seu complexo industrial-militar interno, alimentado com a mesma lógica perversa de inimigos úteis. O povo iraniano, esmagado por uma inflação que beira os cinquenta por cento, e o trabalhador americano, que paga gasolina mais cara cada vez que o Estreito de Ormuz é mencionado, continuam sendo a moeda de troca silenciosa.
O padrão é antigo e quase entediante de tão repetido. Sempre que duas capitais hostis sinalizam aproximação, o capital especulativo se antecipa, devora os ativos descontados pela tensão, e sai antes que a próxima crise apareça. É a velha dança: compra-se medo, vende-se esperança, e o ciclo recomeça assim que algum drone for derrubado sobre território disputado. Os índices de hoje não refletem paz; refletem a aposta fria de que haverá tempo suficiente para realizar lucros antes do próximo incidente convenientemente cronometrado. Bolsas em máxima histórica em meio a guerras ativas na Ucrânia, em Gaza, no Sudão e na Birmânia não são sinal de prosperidade, são sintoma de uma desconexão profunda entre o cassino financeiro e o mundo onde gente sangra.
Enquanto o Nikkei celebra seus 65 mil, o salário real do trabalhador japonês está em queda há vinte meses consecutivos. Enquanto Bruxelas comemora os ganhos das bolsas europeias, a indústria alemã passa pela maior desindustrialização desde a reunificação, sufocada por uma política energética suicida e por sanções que punem mais quem as aplica do que quem é alvo delas. O mercado financeiro virou uma realidade paralela, alimentada por liquidez artificial e narrativas convenientes, enquanto a economia produtiva definha. Quando esses dois mundos se reencontrarem, e eles sempre se reencontram, a conta virá. E como de costume, não será paga por quem brindou no topo.
Diplomacia é a continuação da guerra com bons ternos e melhores almoços. Bolsa em alta durante negociação geopolítica é apenas o cheiro de pólvora vendido como perfume.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.