Existe uma cena que se repete em toda capital petrolífera do mundo, com variações tão pequenas que chegam a ser entediantes. Um ministro poderoso, um setor estratégico, contratos de bilhões de dólares dependendo de uma assinatura, e depois, invariavelmente, um tribunal tentando entender por que o funcionário público vivia como um sheik enquanto o país apodrecía. A Nigéria não inventou nada. Apenas aperfeiçoou o roteiro com uma consistência que merece, no mínimo, reconhecimento técnico.
Diezani Alison-Madueke comandou o ministério do petróleo nigeriano por seis anos, entre 2010 e 2015, período em que a Nigéria era o maior produtor de petróleo da África e a OPEP tinha em Lagos uma cadeira de peso. Nesse período, a acusação sustenta que ela habitou propriedades no Reino Unido pagas e reformadas por figuras da indústria, viveu aquilo que o promotor chamou de "uma vida de luxo", e que tudo isso não era coincidência nem generosidade desinteressada de executivos do setor de energia. Ela nega. Naturalmente nega. Em décadas de acompanhar escândalos de corrupção em países produtores de petróleo, nenhum ministro jamais confirmou nada no primeiro dia de julgamento.
O mecanismo aqui não é segredo para quem presta atenção. O petróleo nigeriano não pertence ao nigeriano comum, nunca pertenceu. Pertence a uma cadeia de contratos, concessões, royalties e acordos de exploração que conecta Abuja a Londres, Houston e Haia com uma eficiência que o setor público daquele país jamais demonstrou em nenhuma outra função. A ministra que decide quem extrai, quanto extrai e em que condições, detém um poder que vale muito mais do que o salário oficial. Vale casas em Chelsea. Vale reformas pagas. Vale a diferença entre um funcionário público e alguém que nunca mais precisa se preocupar com dinheiro pelo resto da vida. O mercado sempre precifica com exatidão o que o Estado jamais declara.
O que torna o caso de Diezani particularmente revelador não é a corrupção em si, que é banal, mas a anatomia do sistema que a torna possível e, por longo tempo, invisível. A Nigéria arrecadou centenas de bilhões de dólares em receitas de petróleo nas últimas décadas. A maioria dos nigerianos vive com menos de dois dólares por dia. Esse abismo não é acidente geográfico nem herança cultural. É o resultado previsível de um sistema em que o Estado controla um recurso valiosíssimo, distribui o acesso a esse recurso por critérios opacos, e os poucos que comandam esse processo descobrem cedo demais que as regras são para os outros. Quando um governo tem o monopólio sobre uma riqueza natural, ele não cria prosperidade. Cria uma fila de pessoas dispostas a tudo para chegar perto do guichê.
A acusação foi apresentada em Londres porque Diezani mora no Reino Unido desde que deixou o cargo, o que por si só conta uma história. Não ficou para ver o resultado das políticas que implementou. Não está em Lagos explicando às famílias de pescadores do Delta do Níger por que o rio que alimentava seus filhos agora é um cemitério de hidrocarbonetos. Está em tribunal britânico negando, com assistência jurídica cara, acusações que descrevem uma vida que a maioria dos nigerianos não consegue imaginar nem na ficção. O petróleo saiu do subsolo africano, o dinheiro foi para contas europeias, e o continente ficou com a conta ambiental e o vazio institucional. Esse é o negócio do século, repetido em cada latitude onde há recurso natural e Estado fraco o suficiente para ser capturado.
O julgamento vai seguir seu curso com a lentidão ritual dos processos contra poderosos. Haverá testemunhas, documentos, contestações técnicas sobre o que constitui propina e o que constitui presente entre amigos do mesmo setor. No final, independente do veredicto, os contratos de exploração que foram assinados naquele período continuam vigentes, as empresas que supostamente bancaram o luxo continuam extraindo, e o trabalhador nigeriano que pagou o preço de ter um Estado rico e uma nação pobre não receberá um centavo de volta. O tribunal pode condenar a ministra. Não pode condenar o sistema que a produziu, porque esse sistema é o ponto.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.