Quem passou anos despachando em gabinete climatizado do Ministério da Justiça, decidindo a vida alheia com canetada e parecer, dificilmente volta para casa às cinco da tarde, beija a esposa e abre uma padaria. Marivaldo Pereira, que serviu nos governos petistas em posições estratégicas da pasta, agora aparece cotado para disputar uma vaga na Câmara pelo Distrito Federal. Ao lado dele, Ruth Venceremos, ex-assessora da Secom, também figura na lista de cogitados. O nome é poético, a trajetória é prosaica: do contracheque federal para o palanque, com escala obrigatória no fundo partidário.
O fenômeno tem nome técnico antigo, embora ninguém goste de pronunciá-lo na televisão: captura. O servidor de confiança, nomeado por afinidade ideológica, aprende nos corredores do Executivo onde estão as torneiras, quem aperta, quem afrouxa, quem assina, quem libera. Sai dali com uma agenda de telefones que vale mais do que diploma de doutorado. A candidatura é a monetização natural desse capital político acumulado às custas do contribuinte, que financiou o curso intensivo de relações governamentais sem nunca ter sido consultado.
Repare na engenharia: o sujeito é nomeado por indicação política, recebe salário pago por quem trabalha de carteira assinada, constrói rede de contatos no aparelho estatal, e devolve o favor candidatando-se com estrutura partidária bancada por fundo eleitoral, que também sai do bolso do mesmo otário que paga IPTU, ICMS, contribuição sindical compulsória e mais uma dezena de tributos cujo nome ele nem decora. O ciclo se fecha quando, eleito, vota orçamento, indica afilhado para cargo na máquina, e prepara o próximo aspirante a deputado vindo da mesma fornalha. É a oligarquia se reciclando com aparência de renovação democrática.
O Distrito Federal é o laboratório perfeito desse arranjo, porque é a única unidade da federação onde praticamente todo mundo, direta ou indiretamente, mama na teta do orçamento da União. Funcionário público, terceirizado, fornecedor, consultor, advogado de causas administrativas, lobista travestido de assessor parlamentar. Brasília elege quem promete manter o sistema funcionando, e o ex-secretário sabe disso melhor do que qualquer marqueteiro. Ele não vai pedir voto falando em corte de gasto, vai pedir voto prometendo continuidade, que é o eufemismo educado para conservar o esquema.
Há quem ache bonito esse trânsito entre técnica e política, como se fosse virtude republicana. Não é. É a confissão de que o cargo público nunca foi serviço, sempre foi estágio remunerado para a próxima fase da carreira. O eleitor é chamado a chancelar com voto algo que já estava decidido em reunião fechada, com café e biscoito pagos pela mesma fonte de sempre. Se a coisa fosse honesta, exigiria quarentena longa, devolução do capital político construído com recurso alheio, e proibição de usar contatos do antigo cargo na campanha. Como não é honesta, é apenas legal, que é coisa muito diferente.
No fim, a pergunta que importa permanece intacta, ignorada por toda a cobertura solene da imprensa palaciana. Quem paga essa festa toda, do salário de assessor especial até o santinho impresso em papel couché, e quem efetivamente colhe os frutos do mandato conquistado com esse investimento involuntário? A resposta cabe numa linha, mas dá vergonha de escrever, porque é sempre a mesma há quarenta anos.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.