Existe uma certa elegância perversa em um governo anunciar, com solenidade de discurso inaugural, que vai "fazer a economia trabalhar para as famílias e não o contrário", como se a relação atual entre o cidadão americano e seu aparato estatal fosse uma fatalidade climática e não uma construção deliberada, orçada, votada e renovada há décadas por ambos os partidos. O anúncio da administração Trump, divulgado com exclusividade por um veículo simpático à causa, é exatamente o tipo de retórica que merece ser lida duas vezes: uma para entender o que diz, e outra para entender o que esconde.
A ideia de "reestabelecer o trabalho como centro da política social" soa razoável até o momento em que se pergunta quem, exatamente, afastou o trabalho desse centro. A resposta não cabe em um parágrafo de comunicado de imprensa. Cabe em décadas de programas federais desenhados com a generosidade de quem gasta o dinheiro alheio: subsídios que desincentivam a empregabilidade, benefícios que expiram quando a renda aumenta, criando armadilhas matemáticas para o trabalhador pobre, regulações que encarecem a contratação ao ponto de tornar o emprego formal um luxo para o setor informal. O Estado americano não falhou em proteger as famílias. Ele teve um sucesso retumbante em torná-las dependentes.
A história tem um padrão fastidioso de se repetir. Toda grande reforma "em favor do trabalhador" produz, a médio prazo, uma nova camada de burocracia encarregada de administrar os efeitos colaterais da reforma anterior. O New Deal dos anos 1930 gerou agências que ainda existem. A Guerra à Pobreza dos anos 1960 gerou departamentos inteiros que sobreviveram às guerras, às crises e aos presidentes. Cada promessa de libertar o cidadão do jugo econômico produziu um novo jugo, mais refinado, com formulário de renovação anual. Quem garante que "o trabalho como centro da política social" não é apenas o nome novo de um programa velho com orçamento novo?
Siga o dinheiro, como sempre. A retórica de autonomia familiar e dignidade do trabalho é antiga e genuinamente bonita, mas chega embalada em um pacote de medidas cujos detalhes raramente chegam às manchetes. Quais setores serão desregulados? Quais serão apenas transferidos para novos favoritos? Qual parcela das reformas beneficia a família de quatro pessoas no Ohio e qual beneficia os grupos de pressão que financiaram a campanha? A frase "fazer a economia trabalhar para as famílias" pode significar coisas radicalmente opostas dependendo de quem redige o decreto e quem assina o contrato de implementação.
O custo humano real desta conversa toda é o indivíduo que não aparece no comunicado. É o trabalhador que organizou sua vida ao redor de um benefício que agora pode ser reformulado sem que ninguém o consulte. É o pequeno empresário que ainda não contrata porque não sabe qual será a regra do trimestre que vem. É a mãe que faz cálculos noturnos tentando descobrir se aceitar uma promoção vai ou não desqualificá-la de um auxílio que paga o plano de saúde dos filhos. Essas pessoas não aparecem nas exclusivas. Aparecem nas estatísticas, dois anos depois, quando a reforma já produziu seus efeitos e ninguém mais lembra do anúncio.
Há algo genuinamente correto no diagnóstico de que o Estado americano distorceu a relação entre esforço e recompensa. Há algo profundamente suspeito em confiar que o mesmo Estado, administrado pelos mesmos mecanismos políticos, financiado pelas mesmas coalizões de interesse, vai corrigir essa distorção por bondade. Governos não devolvem poder porque desenvolveram consciência. Devolvem quando não têm escolha, e recolhem assim que a atenção desvia. A família americana não precisa que o governo trabalhe por ela. Precisa que o governo pare de trabalhar em cima dela.
Com informações de The Federalist. A análise e opinião são do O Algoz.