O Mali acordou sob fogo cruzado, e a imprensa internacional descobriu, com seu atraso habitual de uma década, que existe uma guerra no Sahel. A maior ofensiva jihadista em anos não caiu do céu: ela é o resultado matemático, previsível, contábil, de uma sequência de aventuras militares estrangeiras que prometiam estabilidade e entregaram cemitérios. A Operação Serval, em 2013, virou Barkhane, em 2014, virou Takuba, em 2020, virou retirada humilhante em 2022. Cada nome bonito custou bilhões de euros, e cada bilhão saiu do bolso de algum padeiro em Lyon ou de algum motorista de ônibus em Marselha que nunca ouviu falar de Gao ou de Kidal. O resultado está aí, em chamas.
Vale a pena seguir o trajeto do dinheiro, porque ele conta uma história que os comunicados oficiais escondem. A intervenção francesa no Mali movimentou contratos suculentos para a Dassault, para a Nexter, para a Thales. A urânio nigerino que alimenta os reatores da Areva, hoje Orano, sempre esteve a poucos quilômetros do teatro de operações, e qualquer estudante de geografia entende por que Paris tinha tanta pressa em proteger a democracia justamente naquela faixa do mapa. Quando o ouro do Mali e o urânio do Níger ficaram em xeque, descobriu-se subitamente um interesse humanitário urgente. Quando os generais locais expulsaram os franceses e chamaram os russos do Wagner, o interesse humanitário sumiu junto com as bases militares.
A história mundial está cheia desses padrões repetitivos, e o Sahel apenas reencena um roteiro que já foi escrito no Afeganistão dos anos oitenta, na Indochina dos anos cinquenta, na própria África descolonizada às pressas pelas potências europeias quando o custo de manter as colônias passou a ser maior que o lucro de saqueá-las. A potência ocidental entra prometendo ordem, treina exércitos locais, vende armamento, financia milícias supostamente amigas, descobre que as milícias amigas viraram inimigas, retira-se em desordem e deixa o vácuo para o próximo aventureiro. O vácuo nunca fica vazio por muito tempo, e quem entra depois costuma ser pior do que quem saiu. O camponês continua lá, plantando milheto entre crateras de morteiro.
O grande negócio da indústria bélica não é vencer guerras, é mantê-las acesas. Uma guerra terminada é um cliente perdido. Por isso o Sahel recebeu, ao longo de doze anos, fluxos contínuos de armamento ligeiro, veículos blindados, sistemas de comunicação, treinamento, consultoria, e nenhum desses fluxos jamais produziu um exército maliano funcional. Produziu, isso sim, mercados negros transbordantes, onde o mesmo fuzil entregue pelos americanos ao exército regular reaparece, três meses depois, na mão do grupo que ataca uma vila tuaregue. Os relatórios das Nações Unidas documentam isso com precisão entediante, e ninguém lê. A indústria conta com o tédio do contribuinte para continuar faturando.
Enquanto isso, a vítima concreta, aquela que não aparece nas reuniões de Bruxelas nem nas teleconferências de Washington, é o sujeito que vivia razoavelmente bem em Mopti vendendo peixe seco, e que hoje está num campo de deslocados em Bamako sem documento, sem terra, sem família completa. É o jovem recrutado à força, ora pelo exército estatal, ora pelo grupo armado que toma a aldeia na semana seguinte, ambos com o mesmo desprezo absoluto pela vida que o uniforme cobre. É a mulher que perdeu o marido numa emboscada cuja autoria ninguém reivindica, porque a autoria não interessa a ninguém com poder. O Estado, qualquer Estado, manda. O indivíduo sangra. Essa equação nunca muda.
Os mesmos governos europeus que se horrorizam com a chegada de barcos lotados no Mediterrâneo são os que financiaram, durante anos, a desestruturação completa do Sahel. Plantaram caos, colheram refugiados, e agora cobram dos próprios eleitores soluções securitárias para um problema que eles mesmos criaram com dinheiro do contribuinte. A indústria armamentista lucra na ida e a indústria do controle migratório lucra na volta. O ciclo é perfeito, redondo, lucrativo, e funciona exatamente como projetado. A única peça descartável do sistema é o ser humano comum, dos dois lados do Mediterrâneo.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.