A Revista Oeste noticiou, com o ar levemente desconcertado de quem não sabe bem se parabeniza ou acusa, que o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, escolheu se hospedar num hotel de quatro estrelas durante visita ao Rio de Janeiro , e não nas cinco que sua posição, seu ego institucional e seus precedentes de viagem normalmente exigiriam. A mídia corporativa, fiel ao seu papel de assessoria de imprensa não remunerada do establishment jurídico, tratou o episódio como um ato de virtuosa contenção. Faltou apenas o comunicado oficial com foto e auréola. O que nenhum jornalista presente teve a pachorra de perguntar é a única questão que importa: quem pagou essa conta? Porque se foi o orçamento público , e há razões sólidas para acreditar que foi , então estamos diante não de austeridade, mas de um truque de prestidigitação moral em que o mágico usa a carteira da plateia para comprar a flor que presenteia a si mesmo.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, foi cirúrgico ao distinguir a virtude real da sua aparência: a primeira nasce de um hábito formado pela vontade e orientado ao bem; a segunda é uma performance calculada para colher aprovação social. O filósofo chamaria a austeridade de Fachin pelo seu nome técnico , não sophrosyne, a temperança genuína, mas sua contrafação, uma espécie de exibicionismo às avessas. Temperança não é escolher o quarto de quatro estrelas quando alguém mais paga o de cinco. Temperança é gastar o seu próprio dinheiro com moderação. A virtude que se exerce com o recurso alheio é, na melhor das hipóteses, indiferença; na pior, cinismo com roupagem filosófica. E cinismo com toga, como demonstrou Dostoiévski no Grande Inquisidor, é a forma mais acabada de tirania intelectual , aquela que se crê benfeitora.
Rothbard não teria paciência para eufemismos. O que está em jogo aqui não é o caráter pessoal de Fachin, que pode ser irrelevante para a análise, mas a estrutura do roubo institucionalizado que torna possível essa comédia. O Estado, como Bastiat explicou com precisão de relojoeiro no século XIX, é a grande ficção através da qual todos tentam viver à custa de todos. O magistrado que viaja com diárias pagas pelo Tesouro não está sendo austero , está sendo austero com o dinheiro que foi extraído à força de terceiros. É a diferença entre o ladrão que te rouba cem reais e devolve dez achando que merece gratidão pela generosidade. O aparato judiciário brasileiro consome proporcionalmente mais recursos públicos do que o de qualquer democracia ocidental comparável, e o STF, seu olimpo dourado, consome proporcionalmente mais do que qualquer outro tribunal do país. Nesse contexto, a escolha entre quatro e cinco estrelas é uma distinção sem diferença , como deliberar entre dois calibres de arma apontada para o mesmo contribuinte.
O mecanismo psicológico que a mídia corporativa emprega nessas ocasiões é o que Voegelin chamaria de segunda realidade , uma construção narrativa paralela que substitui o mundo real por um universo simbólico onde gestos substituem substâncias. No mundo real, brasileiros escolhem, todos os dias, entre pagar o aluguel ou encher a geladeira. No mundo simbólico construído pelo jornalismo de corte, um magistrado que escolhe a penúltima opção num cardápio de luxo torna-se uma espécie de Francisco de Assis da jurisprudência, digno de cobertura respeitosa. Burke advertiu que as instituições são o depósito de sabedoria acumulada de gerações , mas acrescentaria que instituições que perderam o vínculo orgânico com a realidade dos governados se convertem em castas, e castas desenvolvem sua própria liturgia para celebrar a si mesmas. A liturgia, neste caso, inclui comunicados de imprensa sobre estrelas de hotel.
São Tomás de Aquino ensinava que o bem comum não se reduz à soma dos interesses privados dos governantes , ele exige que o poder seja exercido em serviço, não em usufruto. Quando a classe dirigente confunde suas regalias com prerrogativas naturais do cargo e sua contenção ocasional com virtude política, ela não falha apenas eticamente; ela falha logicamente. O silogismo é implacável: a virtude pressupõe escolha livre sobre o próprio bem; o magistrado não escolhe livremente sobre o bem alheio; logo, o magistrado que exerce "austeridade" com dinheiro público não pratica virtude , pratica gerenciamento de percepção. E gerenciamento de percepção, numa república que se preza, devia ser vergonha, não pauta. A pergunta que o Jornal Algoz faz , e que o jornalismo brasileiro se recusa a formular , é simples, transparente e devastadora: apresente a nota fiscal, ministro. Quatro estrelas pagas com o quê? Austeridade tem endereço. E esse endereço, suspeita-se com fundamento, é o mesmo de sempre: a carteira de quem não tem toga para se proteger.