Fatou Bensouda, a gambiana que durante quase uma década comandou as investigações do Tribunal Penal Internacional, agora revela aquilo que qualquer observador minimamente lúcido já sabia: foi sistematicamente ameaçada, vigiada e hostilizada por ter ousado abrir investigações sobre crimes cometidos em territórios palestinos. As ameaças, segundo ela, vieram de Israel e de seus padrinhos em Washington, que chegaram ao requinte cômico de aplicar sanções pessoais contra uma procuradora internacional, como se ela fosse um traficante de armas ou um chefe de cartel. A confissão chega tarde, mas chega, e desnuda aquilo que o teatro diplomático insiste em maquiar com cortinas de veludo.
Há algo de profundamente revelador no espetáculo de uma potência nuclear, sustentada por bilhões anuais em assistência militar do contribuinte americano, sentindo-se ameaçada por uma senhora africana de toga preta sentada num gabinete em Haia. A reação histérica, que incluiu desde grampos telefônicos até pressão econômica sobre familiares, denuncia menos a fragilidade do acusado e mais a hipocrisia estrutural do sistema de justiça internacional. O TPI nasceu para julgar os perdedores das guerras, nunca os vencedores; serve para enquadrar coronéis sérvios, milicianos congoleses e ditadores africanos caídos em desgraça, jamais para tocar nos generais que comandam exércitos com porta-aviões e veto no Conselho de Segurança.
Siga o dinheiro e tudo se ilumina. O orçamento militar israelense é parcialmente custeado por aproximadamente 3,8 bilhões de dólares anuais transferidos diretamente do Tesouro americano, dinheiro que sai do bolso do mecânico do Texas e do enfermeiro de Ohio para alimentar contratos com Lockheed Martin, Raytheon, Boeing e General Dynamics. Cada bomba lançada sobre Gaza tem código de barras impresso em fábrica americana, e cada código de barras representa um lobby pago, um congressista influenciado, um analista de think tank generosamente subsidiado. Quando Bensouda começou a farejar essa cadeia produtiva, não estava ameaçando apenas Israel; ameaçava o ecossistema inteiro que vive da indústria da destruição perpétua no Oriente Médio.
A história já viu esse filme inúmeras vezes. As potências vitoriosas em Nuremberg jamais foram chamadas a responder pelos bombardeios incendiários sobre Dresden, Tóquio, Hamburgo ou pelas duas bombas atômicas lançadas sobre populações civis. Os arquitetos do Vietnã morreram cobertos de honrarias acadêmicas. Os responsáveis pela invasão do Iraque, que produziu centenas de milhares de mortos com base em mentiras sobre armas inexistentes, hoje dão palestras pagas em universidades de elite e escrevem memórias que viram best-sellers. A justiça internacional é como rede de pescador: prende sardinhas, deixa os tubarões passarem confortavelmente pelos buracos largos.
O caso Bensouda escancara também a falsidade do conceito de soberania jurídica universal. As sanções aplicadas contra a procuradora pelo governo americano, durante o primeiro mandato de Trump e mantidas em espírito pelos sucessores, equivaleram a tratar um magistrado internacional como inimigo do Estado. Foi uma declaração brutal de que existem cidadãos do mundo cuja conduta jamais será julgada, porque eles próprios são donos do tribunal, do código penal e do carcereiro. O resto da humanidade que se contente com o teatro: discursos solenes na Assembleia Geral, resoluções não vinculantes, relatórios de comissões que ninguém lê e ninguém cumpre.
No fim, quem paga a conta dessa farsa? O palestino de Khan Younis cuja casa virou pó, o jovem israelense convocado para morrer em nome de uma política expansionista que não escolheu, o contribuinte americano que financia involuntariamente o massacre, e a própria ideia de que existe alguma régua moral acima da força bruta. Bensouda fala agora porque já não tem cargo a perder; os que ainda sentam na cadeira dela permanecem calados, porque entenderam o recado. A justiça internacional existe enquanto não atrapalha; quando atrapalha, vira alvo. E o tribunal que não pode julgar os poderosos não é tribunal, é cenário.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.