Meio trilhão de reais. Leia de novo, devagar, porque o cérebro recusa o número na primeira passada. Quinhentos e quinze bilhões e setecentos milhões de reais em contratos de compra de energia que o governo federal quer carimbar na semana que vem, com a serenidade de quem assina um boleto de condomínio. A Fiesp, que historicamente costuma cochilar enquanto o Estado avança sobre o caixa da indústria, acordou sobressaltada e foi à Justiça pedir que o juiz, por favor, segure a caneta antes que ela complete a assinatura. Não é coragem cívica, é instinto de sobrevivência: quando o tamanho da pilhagem ameaça quebrar até o pilhado contumaz, o pilhado pula da cadeira.

O leilão em questão pertence àquela categoria de obra estatal que ninguém entende direito, mas todo mundo paga. Energia de reserva, capacidade ociosa, contratação por décadas, indexação generosa, garantia de retorno blindada contra qualquer intempérie do mercado real. Em bom português, o governo compromete o consumidor brasileiro, sob a forma de tarifa, com um cheque pré datado de trinta anos cujos beneficiários já estão escolhidos antes mesmo do pregão começar. O risco é socializado, o lucro é privatizado, e a conta vai aparecer pulverizada na fatura de luz da padaria, da costureira, da metalúrgica e, sim, do industrial paulista que agora descobriu, comovido, que existem impostos disfarçados de eletricidade.

Vale a pena olhar para o mecanismo, porque ele se repete há séculos com fantasias diferentes. Era assim quando os monarcas medievais vendiam o monopólio do sal aos cortesãos prediletos e cobravam dos camponeses pelo direito de temperar a comida. Era assim quando as companhias coloniais recebiam cartas régias para explorar territórios inteiros com exclusividade, devolvendo a metade do butim ao trono que assinava a concessão. A engenharia jurídica muda, o figurino se moderniza, mas a peça é sempre a mesma: o poder vende privilégio, o privilegiado paga propina elegante chamada contribuição de campanha, e o povo entra no enredo apenas como pagador silencioso do espetáculo.

Quem ganha com este leilão? Os geradores que travarão receita certa por décadas sem competir com ninguém, blindados contra a queda do preço do megawatt e contra a evolução tecnológica que torna boa parte dessa capacidade obsoleta antes da tinta do contrato secar. Quem perde? O mesmo de sempre, aquele cidadão genérico que não tem lobista em Brasília, não financia comitê parlamentar, não almoça em gabinete e não sabe sequer que existe uma sigla técnica decidindo, neste exato momento, quanto ele pagará de luz em 2045. A Fiesp percebeu que mesmo seus associados, com toda a musculatura para repassar custo, vão sangrar. Imagine o resto.

O detalhe saboroso é o recurso ao Judiciário. O mesmo setor produtivo que durante anos aplaudiu a tutela estatal sobre energia, que assinou embaixo de cada plano decenal, que sentou nas câmaras setoriais distribuindo carimbos, agora pede socorro à toga porque o monstro que ajudou a criar começou a comê lo pelos pés. É a velha cena do feiticeiro que invoca o demônio achando que controla o conjuro e, na hora em que a criatura se vira contra a sala, corre atrás de água benta. Tarde demais, em geral. O Estado não tem regulador, tem apetite; e apetite, uma vez aceso, não conhece classe social entre suas presas.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste país. Quem paga? Você, eu, o motorista de aplicativo, a dona da pensão, o industrial agora chocado e seus operários ainda mais chocados quando o reajuste chegar. Quem recebe? Um clube fechado de gente que conhece o caminho da sala em que o leilão é desenhado antes do edital nascer. Meio trilhão não cai do céu, não brota de árvore, não emerge de cofre invisível. Sai do bolso de quem trabalha e vai para o bolso de quem articula. O resto é prosa de telejornal e jargão de consultor, projetado para que o assalto continue parecendo política pública.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.