Há um padrão tedioso na tragédia sudanesa que a imprensa internacional insiste em tratar como novidade. No Nilo Azul, milhares de famílias acabam de ser despejadas de suas próprias vidas pelos combates entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, e correm para campos como o de Al Karama, em Al-Damazin, onde recebem lonas, farinha e a promessa vazia de que alguém, em algum lugar, está negociando a paz. Não está. O que está sendo negociado é o preço do ouro de Jebel Amir, o controle das rotas que ligam Port Sudan ao Mar Vermelho, e o percentual que cada padrinho estrangeiro vai ficar quando a poeira assentar. A criança sem sapato no campo de deslocados não entra nessa planilha.

Quem acompanha o roteiro sabe que toda guerra civil africana começa com dois generais que ontem dividiam o mesmo quartel. Burhan e Hemedti almoçaram juntos, derrubaram juntos um governo civil em 2021, posaram para fotos juntos diante de diplomatas ocidentais que aplaudiram o tal "período de transição". Depois brigaram pela divisão do butim, como sempre brigam os sócios de uma quadrilha quando o cofre fica pequeno demais para tanto apetite. A diferença é que, quando a quadrilha veste farda, o tribunal que arbitra a disputa é o corpo do camponês do Nilo Azul. Foi assim no Biafra, foi assim em Ruanda, foi assim no Congo de Mobutu, e está sendo assim agora, com a única atualização tecnológica sendo o drone iraniano de um lado e o drone emiratense do outro.

Siga o dinheiro e o mapa se ilumina. As Forças de Apoio Rápido não brotaram do nada; foram criadas, armadas e engordadas por um regime que precisava de uma milícia paralela para fazer o trabalho sujo em Darfur, e depois sustentadas por petrodólares vindos do Golfo em troca de mercenários em Iêmen e de ouro contrabandeado para Dubai. Do outro lado, o exército regular bebe na fonte egípcia, que por sua vez bebe na americana, que por sua vez vende caça e tanque para todo mundo da região com a mesma indiferença comercial. Quando Washington diz que está "preocupada com a situação humanitária", traduza: os escritórios da Lockheed, da Raytheon e da BAE acabaram de fechar mais um trimestre de lucro recorde, porque os mísseis que caem em Cartum saíram das mesmas linhas de montagem que os que caem em Gaza, e o contribuinte de Ohio paga a fatura achando que financia hospital de campanha.

A narrativa oficial gosta de embalar o conflito sudanês como uma briga étnica, tribal, ancestral, aquele velho truque retórico que transforma vítimas concretas em estatística antropológica. É mentira. Não há nada de ancestral em uma guerra travada com Kalashnikovs chineses, caminhonetes Toyota emiratenses, drones turcos e satélites russos. O Sudão é um campo de testes de armamento moderno e um laboratório de pilhagem de recursos, exatamente como o Congo foi para o coltan do seu celular e a Líbia foi para o petróleo leve do Mediterrâneo. Quando a ONU lança um "apelo humanitário" de bilhões e arrecada migalhas, ninguém pergunta por que o mesmo cofre que está vazio para comprar arroz transborda para comprar munição. A resposta é desconfortável: porque arroz não gera dividendo trimestral.

Enquanto isso, em Al Karama, uma mulher conta nos dedos os filhos que sobraram e tenta lembrar onde enterrou os documentos antes de fugir. Ela não sabe o nome do general que mandou bombardear sua aldeia, não sabe em que banco suíço descansa o lucro do ouro que saiu do solo embaixo da sua casa, não sabe que a lona que a cobre foi paga por um imposto cobrado de um trabalhador alemão que também não sabe de nada. Essa é a engrenagem perfeita do negócio da guerra: ninguém vê a corrente inteira, todo mundo vê só o seu elo, e por isso ninguém se sente culpado. O general embolsa, o lobista factura, o burocrata se promove, o jornalista ganha prêmio com a foto da criança chorando, e a criança continua chorando porque na próxima temporada haverá outro conflito, outra foto, outro prêmio.

A paz no Sudão não virá de uma mesa em Genebra nem de uma resolução em Nova York. Virá, se vier, no dia em que os fluxos de armas e de ouro forem cortados na origem, o que nenhuma potência tem o menor interesse em fazer, porque o caos sudanês é lucrativo demais para quem mora longe dele. Até lá, Al Karama continuará crescendo, os campos continuarão recebendo gente que ontem tinha terra e hoje tem fome, e os comunicados oficiais continuarão lamentando "profundamente" o que ajudaram ativamente a construir. O Estado fala em soberania, o diplomata fala em estabilidade, o general fala em pátria, e o sudanês comum aprende, do jeito mais caro possível, a velha lição: quando os senhores se desentendem, são os servos que sangram.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.