Com 96% das urnas apuradas, o resultado na Hungria tinha aquela limpeza suspeita que os matemáticos chamam de outlier e os políticos chamam de mandato popular. Cento e trinta e oito cadeiras contra cinquenta e quatro. Supermaioria. O tipo de placar que, quando aparece em eleições venezuelanas ou bielorrussas, faz os jornalistas europeus cerrarem o cenho e exigirem auditoria internacional. Quando aparece em Budapeste, esses mesmos jornalistas abrem champanhe. A coerência nunca foi o forte das pessoas que se julgam guardiãs da democracia.
Viktor Orbán não era nenhum santo. Nenhum governante que fica dezesseis anos no poder é santo, porque o poder corrói, e dezesseis anos é tempo suficiente para corroer até granito. Seus aliados enriqueceram. A imprensa húngara foi progressivamente sufocada. O Estado foi usado como instrumento de favor político com uma desenvoltura que não honra nem os piores exemplos da história centro-europeia. Tudo isso é real, tudo isso é condenável, e nada disso é o ponto. O ponto é que Orbán representava, com todos os seus defeitos, um governo que não pedia permissão a Berlim, Paris ou Bruxelas para definir sua política migratória, sua política educacional e sua política de família. Isso, no vocabulário do século XXI, chama-se "ameaça à democracia". Perceba a elegância do mecanismo: democracia, aqui, significa concordância com o consenso do establishment supranacional. Quem discorda é autoritário por definição.
Péter Magyar apareceu do nada, como aparecem todos os salvadores providenciais da política contemporânea: com uma história pessoal dramática suficientemente fotogênica, com acesso imediato a financiamento que pequenos partidos de oposição jamais conseguiriam mobilizar organicamente, e com uma cobertura internacional que transformou um desconhecido em fenômeno em questão de meses. Sua ex-esposa tinha vínculos com estruturas financiadas por fundações conhecidas por seu ativismo eleitoral em países periféricos. Isso não é teoria da conspiração, é biografia pública. Siga o dinheiro, como se diz: o dinheiro, neste caso, tinha passaporte ocidental e interesse manifesto na reversão de todas as políticas húngaras que contrariavam o projeto de integração forçada da União Europeia.
A história tem um repertório finito de situações, e esta é velha conhecida: o governante incômodo é substituído pelo candidato que os poderes externos podiam tolerar, e o povo que votou pela mudança descobre, alguns anos depois, que a mudança consistiu em trocar um senhor por outro com melhor relações públicas. Roma fazia isso com seus reis-clientes nas províncias. A Inglaterra fazia isso com seus protegidos coloniais. O método é o mesmo, a retórica se modernizou. Antes se falava em "civilização". Agora se fala em "Estado de direito" e "valores europeus", que é a mesma coisa com roupagem burocrática.
O cidadão húngaro que votou em Magyar votou por quê? Por inflação, por corrupção, por cansaço de ver os mesmos rostos há dezesseis anos, por esperança genuína de mudança, como votam todos os povos quando trocam um governo por outro. Esses motivos são legítimos e compreensíveis. O problema não é o voto, é o produto que foi colocado na gôndola para ser escolhido. Quando as opções disponíveis são definidas por quem controla o financiamento de campanha, a cobertura midiática e a pressão diplomática, a eleição é livre no mesmo sentido em que um prisioneiro é livre para escolher entre o cardápio do almoço e o cardápio do jantar. A autonomia é real dentro de limites que ele não negociou e não pode alterar.
Que a Hungria vire uma democracia plena, florescente e próspera seria excelente. Seria excelente se Magyar fosse o que diz ser, se o dinheiro que o colocou no poder não exigir retorno, se a supermaioria parlamentar for usada para expandir liberdades civis ao invés de apenas alinhar o país ao roteiro que Bruxelas já tinha redigido antes da eleição. Pode acontecer. Também pode acontecer que o inverno em Budapeste seja ameno este ano. As probabilidades são comparáveis. Por ora, o que se sabe é que dezesseis anos de um governo nacionalista e cheio de vícios foram encerrados por um movimento de oposição que o Ocidente financiou, celebrou, amplificou e agora enaltece como prova do funcionamento da democracia. Há uma palavra para descrever o momento em que a propaganda celebra a si mesma como verdade. Não é uma palavra bonita.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.