A notícia chega com aquele constrangimento típico das reuniões em que alguém finalmente pergunta quem vai pagar a conta. Cinco governos da aliança atlântica recusaram a proposta de transformar em obrigação contábil aquilo que até ontem era apresentado como dever moral inadiável: destinar 0,25% do PIB nacional para sustentar a máquina militar ucraniana. Pequeno percentual, dirão os entusiastas da generosidade alheia. Mas é justamente na pequenez do número que mora o truque, porque 0,25% do PIB de uma economia europeia significa bilhões transferidos anualmente, em perpetuidade, do contribuinte de Lisboa, Roma ou Bratislava para o caixa de fabricantes de munição em Ohio, Pensilvânia e Arizona. A solidariedade, quando passa pelo balcão da Lockheed, da Raytheon e da General Dynamics, deixa de ser virtude e vira dividendo trimestral.

O detalhe pitoresco é que a aliança, fundada sob o pretexto da defesa coletiva contra uma ameaça existencial, agora precisa institucionalizar por decreto aquilo que deveria ser entusiasmo espontâneo. Se a causa fosse tão evidente, tão urgente, tão civilizacional como insistem os ministros em coletivas ensaiadas, não seria preciso amarrar os membros a percentuais compulsórios do produto interno. Bastaria a convicção. O fato de que cinco capitais resistiram revela o que os discursos escondem: a fadiga de pagar três anos seguidos por uma guerra cujo desfecho ninguém mais consegue prometer com cara séria. Quando o vendedor precisa empurrar o produto goela abaixo, é porque o cliente já desconfia da mercadoria.

Há um padrão histórico que se repete com pontualidade quase litúrgica. Toda aliança militar nasce defensiva, envelhece burocrática e morre como instrumento de extração fiscal disfarçado de cooperação. Os impérios antigos chamavam isso de tributo, e ao menos tinham a honestidade de exigir ouro à força. As alianças modernas refinaram a técnica: o tributo agora se chama compromisso de gastos, e o exército estrangeiro que o exige se apresenta como parceiro. Atenas fez o mesmo com a Liga de Delos, transformando contribuições voluntárias contra os persas em mesada permanente para sustentar a marinha ateniense. Terminou em guerra civil grega. Os imperadores romanos cobravam suas legiões das províncias com argumentos de segurança comum. Terminou em colapso fiscal e moedas adulteradas. A novidade do nosso tempo é apenas o marketing.

Observe o silêncio sobre quem efetivamente embolsa esses 0,25%. Não é o soldado ucraniano na trincheira, que recebe salário miserável e morre sem direito a obituário. Não é o civil de Kharkiv, cuja casa virou pó. Não é o europeu comum, que viu sua conta de energia triplicar e o pão da padaria virar artigo de luxo. O dinheiro flui em outra direção, sobe pela cadeia das licitações emergenciais, atravessa os contratos sem concorrência assinados em nome da urgência, repousa finalmente nos balanços das empresas que jamais perderam um filho na guerra, jamais dormiram num porão sob bombardeio, jamais tiveram a fronteira invadida. Para essas empresas, cada míssil disparado é uma encomenda de reposição. Cada cidade destruída é mercado futuro de reconstrução. A paz é péssimo negócio, e por isso a paz é sistematicamente sabotada nas mesas onde se decide a guerra dos outros.

A recusa dos cinco países não deve ser confundida com despertar moral. É contabilidade pura. Governos quebrados, inflação corroendo poupanças, agricultores bloqueando estradas, indústria fugindo para territórios com energia mais barata, e ainda assim querem mais um cheque permanente para o front. Existe um limite até para a paciência fiscal das democracias parlamentares, e esse limite parece ter sido finalmente roçado. Quando o operário polonês descobre que paga imposto para que o burocrata de Bruxelas envie obus para Donetsk enquanto sua aposentadoria é cortada, a engrenagem do consentimento começa a ranger. E nenhum império, por mais sofisticado, sobrevive ao dia em que o pagador da conta enxerga o cardápio.

O mais revelador, contudo, é a linguagem dos defensores da proposta. Falam em obrigação, em compromisso, em previsibilidade do financiamento, como se estivessem discutindo manutenção de estrada vicinal e não a institucionalização perpétua de transferências bilionárias para um conflito sem horizonte de encerramento. A previsibilidade que tanto desejam é a previsibilidade do faturamento dos fornecedores, garantia contratual de que a torneira não fechará independentemente do que aconteça no campo de batalha, no parlamento ou no bolso do cidadão. É a transformação da guerra em assinatura recorrente, modelo Netflix aplicado ao massacre. E os cinco recalcitrantes, sem saberem talvez, prestaram um serviço civilizatório ao lembrar que cofre coletivo é eufemismo para confisco distribuído, e que toda obrigação compulsória de gasto militar é, no fundo, a confissão de que o argumento moral já não convence ninguém.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.