Em Sorocaba, num palanque qualquer do interior paulista, o filho mais velho do clã anunciou que subiria a rampa do Planalto em 2027 acompanhado dos condenados pelos atos de 8 de janeiro. A cena foi descrita com a solenidade que costuma acompanhar promessas messiânicas, mas o que se viu, na verdade, foi a confissão pública de um cálculo eleitoral frio. O preso deixou de ser pessoa para virar adereço de campanha, faixa humana, troféu que se carrega rampa acima diante das câmeras. Antes de aplaudir ou de se indignar, convém perguntar a coisa mais aristotelicamente óbvia do mundo: o que essa frase é, de fato, para além do que ela diz ser?

É um contrato. Um contrato no qual o senador oferece anistia futura em troca de fidelidade presente, e a moeda dessa transação são exatamente os corpos das famílias que hoje peregrinam por gabinetes pedindo a liberdade de pais, filhos e maridos. Note a engenharia do arranjo: enquanto a promessa não se cumpre, o sofrimento daquela gente rende discurso, rende vídeo viral, rende militância gratuita, rende doação. Quanto mais tempo os presos ficarem presos, melhor para o palanque. Há um incentivo perverso embutido aí que qualquer pessoa medianamente atenta enxerga, mas que a plateia, devidamente emocionada, prefere não enxergar. A dor alheia virou ativo de campanha, e ativo de campanha não se liquida antes da hora.

Do outro lado do tabuleiro, a máquina que prende também precisa que esses presos continuem presos. Repare na simetria quase cômica: o regime que se autodeclara guardião da democracia precisa de inimigos eternos para justificar penas eternas, e a oposição que se autodeclara perseguida precisa de mártires eternos para justificar discursos eternos. Os dois lados ganham com a manutenção do problema. Quem perde é o sujeito enfiado numa cela há mais de três anos por ter quebrado vidraça, por ter dormido na grama, por ter postado bobagem em grupo de WhatsApp. Esse, sim, paga a conta inteira da festa, enquanto os dois extremos do palco brigam pelo microfone.

A história está cheia desses pactos em que o sofrimento de uns vira capital político de outros. Roma elegeu césares prometendo vingança contra senadores, e os senadores, depois, elegeram outros césares prometendo vingança contra a vingança anterior. O ciclo se alimenta da promessa, nunca da entrega. Quando a entrega chega, costuma vir mutilada, seletiva, negociada nos bastidores com os mesmos juízes que antes condenavam. A rampa subida com presos em 2027, se acontecer, será coreografia para a foto. A anistia de verdade, a que devolveria as vidas inteiras dessas pessoas, depende de uma articulação parlamentar que ninguém demonstra ter pressa de costurar, porque costurar agora é matar a galinha dos ovos de ouro emocional.

Há ainda o detalhe mais desconfortável, que é o silêncio sobre o princípio. Ninguém no palanque defende a ideia de que prender cidadão por dezessete anos por desordem em prédio público é, em si, uma monstruosidade jurídica que envergonharia qualquer país sério, independentemente de quem governe. Não se ouve uma palavra sobre proporcionalidade da pena, sobre devido processo, sobre o absurdo de penas de tribunal de exceção aplicadas em série por colegiado que acumula as funções de vítima, investigador e juiz. O discurso fica restrito ao acerto de contas futuro, à promessa de revanche, ao espetáculo da rampa. Trocar uma injustiça por outra injustiça, em sentido contrário, é continuar dentro da mesma lógica que produziu a primeira. E é justamente essa lógica que rende voto, dos dois lados.

No fim das contas, a pergunta volta intacta ao ponto de partida. Quem paga essa promessa são as famílias dos presos, que continuam reféns de um calendário eleitoral que não é o delas. Quem recebe é o palanque, que ganha mais um ano e meio de combustível emocional grátis até a próxima urna. O preso virou commodity, e commodity boa é a que mantém o preço alto até a hora certa de vender. Rir disso é a única defesa que resta a quem ainda não quer ser cliente desse mercado.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.