Wes Streeting, que até ontem despachava no Departamento de Saúde britânico assinando contratos bilionários com prestadores privados sob a bandeira da sacrossanta NHS, decidiu que a vocação dele agora é trocar o inquilino do número 10 de Downing Street. O timing é uma obra-prima de cinismo político: o Partido Trabalhista despenca nas pesquisas, o primeiro-ministro Keir Starmer afunda na popularidade depois de uma sequência de promessas evaporadas, e eis que surge o salvador, vindo justamente do ministério onde as filas de espera bateram recordes históricos e onde os contratos com a iniciativa privada cresceram silenciosamente enquanto o discurso permanecia socialista para consumo das massas.
O leitor desavisado é convidado a engolir a fábula de que se trata de uma disputa ideológica, uma renovação programática, talvez até um sopro democrático dentro da legenda. Bobagem. O que está em jogo é o controle da máquina, da agenda eleitoral e, sobretudo, do funil de doações que financia campanhas no Reino Unido. Streeting é o queridinho dos doadores corporativos do trabalhismo, dos lobistas farmacêuticos que veem na reforma da NHS um banquete de licitações, e dos consultores que migram entre governo e setor privado como tubarões entre recifes. Não é coincidência que o homem mais barulhento sobre abrir o sistema de saúde ao capital privado seja também o homem com a maior rede de jantares em Mayfair.
A história inglesa tem uma piada antiga sobre essas trocas internas de poder. No século dezoito, quando os Whigs disputavam o gabinete entre si, dizia-se que a única diferença entre uma facção e outra estava na lista de quem comeria primeiro no banquete. O eleitor era convidado a se emocionar com pautas grandiosas enquanto, nos bastidores, redistribuíam-se as concessões portuárias, os monopólios coloniais e os contratos com a Marinha Real. Trezentos anos depois, troque colônias por contratos de tecnologia em saúde, troque Marinha Real por indústria de defesa engordando com a guerra na Ucrânia, e o roteiro é rigorosamente idêntico. Muda o figurino, não muda o palco.
Há, ainda, a camada externa que ninguém na imprensa britânica quer enxergar. Starmer enfraquecido significa instabilidade num momento em que Londres opera como o segundo maior fornecedor de armas para Kiev e como o entreposto financeiro preferido para a movimentação de ativos russos congelados. Os bancos da City, os escritórios de advocacia que faturam administrando sanções, os fundos que lucram com a volatilidade das commodities, todos têm interesse direto em quem segura a chave do gabinete. Uma sucessão mal coreografada custa pontos-base no rendimento dos títulos britânicos, e pontos-base, no volume que se opera ali, são fortunas inteiras transferidas em segundos.
Enquanto isso, o trabalhador inglês, aquele mesmo que vê o aluguel comer dois terços do salário, que paga impostos para sustentar uma estrutura sanitária onde se morre na fila esperando consulta, é convocado a torcer numa novela palaciana como se fosse parte interessada. Não é. Ele é o financiador involuntário do espetáculo, o figurante mudo que paga o ingresso da própria humilhação. Seja Starmer, seja Streeting, seja o próximo nome que algum departamento de comunicações estiver fabricando neste exato instante, o contracheque do súdito continuará sendo a moeda com que se compra a próxima rodada de promessas.
O Império Britânico, no auge da sua arrogância, sustentava a ficção de que governava colônias para civilizá-las. Hoje, o herdeiro encolhido daquele império sustenta a ficção de que governa os próprios cidadãos para protegê-los. A diferença entre uma mentira e outra é apenas a latitude em que ela é contada. Quem disputa o cetro não disputa um projeto de nação; disputa o direito de assinar os cheques que sairão do bolso alheio.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.