Há algo profundamente revelador no fato de que a coroação esportiva mais cara da história europeia tenha produzido, na mesma madrugada, mais detidos do que jogadores em campo nas últimas dez rodadas do campeonato francês somadas. Quatrocentos e dezesseis pessoas algemadas, 283 delas em Paris, segundo o próprio Ministério do Interior, que divulga o número com aquele orgulho contido de gerente que bateu meta de fim de mês. O troféu foi do clube, mas a contagem oficial pertenceu ao Estado, e é sempre instrutivo observar quem realmente faz questão de aparecer no telão quando as luzes se acendem.
Convém lembrar que o Paris Saint-Germain não é exatamente uma agremiação de bairro mantida por rifas de quermesse. O clube é, há mais de uma década, instrumento de soft power de uma monarquia do Golfo que comprou notoriedade europeia com cheques que tornariam corado qualquer auditor honesto. Bilhões em folha salarial, contratos de patrocínio inflados artificialmente, tribunais esportivos olhando para o lado com a disciplina de um porteiro subornado. A taça erguida em Munique custou, em valor presente, o orçamento anual de hospitais inteiros que o contribuinte francês financia enquanto reclama do preço do pão. Ninguém pergunta de onde vem o dinheiro do espetáculo; perguntam apenas por que o salário não fecha o mês.
E é precisamente aí que mora a graça macabra da operação. O mesmo aparato estatal que abre as portas para capital estrangeiro de origem politicamente conveniente, que concede vistos diplomáticos a xeiques e isenções fiscais a estádios, é o aparato que jogou tropas de choque contra adolescentes em Champs-Élysées por queimar uma lixeira. A violência do garoto da periferia é tratada como ameaça à civilização; a violência financeira do fundo soberano que comprou o clube é tratada como investimento estratégico. Existe uma hierarquia muito clara sobre quais formas de desordem são toleráveis, e ela coincide, com precisão de relógio suíço, com quais formas de desordem geram receita para o aparato.
Há ainda o detalhe não desprezível de que cada prisão é, em si mesma, uma transação econômica disfarçada de zelo cívico. Cada cela ocupada justifica orçamento policial, cada relatório de tumulto justifica nova compra de equipamento antidistúrbio, cada noite de caos justifica a próxima rodada de contratos com fornecedores de gás lacrimogêneo, de blindados urbanos, de software de reconhecimento facial. A república que se diz iluminada descobriu, faz tempo, que o melhor cliente do complexo de segurança interna é o próprio cidadão em estado de catarse coletiva. A festa popular é o pretexto, o pedido de compra é o resultado. Quem assina o cheque é sempre o mesmo sujeito, aquele que paga imposto sem entender por quê.
A história europeia está cheia desses momentos em que o pão e o circo serviram menos para distrair a plebe e mais para mapeá-la. Roma usava as arquibancadas do Coliseu para identificar dissidentes; as monarquias do antigo regime usavam as festas populares para sondar lealdades; a Terceira República, esta mesma que hoje algema gente em nome da ordem, nasceu reprimindo uma comuna a tiros e nunca perdeu o jeito. O futebol moderno apenas modernizou o ritual. Hoje as câmeras são em 4K, os bastões são telescópicos, e a contagem de detidos é divulgada como placar paralelo na manhã seguinte, com a frieza estatística de quem informa o resultado de uma loteria.
No final, ficam as imagens. O jogador milionário beijando a taça financiada por petróleo. O torcedor anônimo cuspindo sangue no asfalto. O ministro do Interior dando entrevista com semblante grave, vendendo competência repressiva como serviço público. E, em algum escritório discreto, alguém calcula quanto a noite rendeu em horas extras, em contratos de manutenção, em justificativas para o próximo aumento de verba. O Paris Saint-Germain ganhou uma taça. O Estado francês ganhou 416 motivos para continuar existindo do jeito que existe. Adivinhe qual dos dois troféus dura mais.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.