A notícia chega embrulhada em papel de presente: a Copa do Mundo de 2026 vai adicionar mais de quarenta bilhões de dólares ao PIB global, será a edição mais lucrativa da história, e até a inteligência artificial já elegeu seu campeão enquanto os torcedores ainda sonham com a França. A pergunta que nenhum jornalista esportivo faz, porque pagaria com o emprego, é simples: lucrativa para quem, exatamente? Porque PIB não é riqueza distribuída, é número agregado, e agregado esconde mais do que revela. Quando se diz que um evento gera quarenta bilhões, o que se está dizendo, em prosa honesta, é que quarenta bilhões mudarão de bolso. E mudar de bolso, no vocabulário do poder, raramente significa do rico para o pobre.
Siga o caminho do dinheiro e a coreografia se torna óbvia. A entidade que organiza o torneio, sediada confortavelmente num cantão suíço de tributação simbólica, embolsa bilhões em direitos de transmissão, patrocínio e licenciamento sem pagar pelos estádios, pela segurança, pelo transporte, pela limpeza ou pelas isenções fiscais que exige como condição contratual. As cidades-sede assinam acordos blindados, abrem mão de impostos sobre patrocinadores oficiais, garantem perímetros comerciais onde o vendedor ambulante da esquina vira criminoso e a multinacional vira monopolista, e ainda chamam isso de honra. É o modelo perfeito: privatiza-se o lucro do espetáculo e socializa-se o custo da infraestrutura. O torcedor aplaude, o turista paga caro, o trabalhador americano, mexicano e canadense banca o resto pelos próximos vinte anos em forma de juros de títulos municipais.
A história já viu esse filme em todos os continentes. Pão e circo não é metáfora, é manual administrativo testado há dois milênios; quando o tesouro público precisa distrair a plebe das contas que não fecham, ergue-se uma arena. O Império Romano sabia, os faraós sabiam, e os ministérios da fazenda contemporâneos sabem que estádio bem iluminado vale mais que escola funcionando, porque escola não dá ibope e arena dá. A diferença é que hoje os Coliseus vêm com naming rights, sky boxes vendidos a fundos de investimento e contratos de catering negociados em paraísos fiscais. A multidão não percebe que o ingresso já foi pago antes dela chegar à bilheteria, descontado em folha, retido na fonte, embutido no preço do pão.
O detalhe geopolítico, quase pudico, é que essa edição de 2026 ocorre em três países simultaneamente, num momento em que o dólar disputa hegemonia com cestas alternativas, em que sanções viraram política externa cotidiana e em que o futebol passou a ser instrumento de soft power tão importante quanto porta-aviões. Não é coincidência que monarquias do golfo compram clubes europeus inteiros, que fundos soberanos asiáticos patrocinam camisas, que ditaduras importam estrelas em final de carreira por cifras obscenas. O esporte virou lavanderia diplomática. E quem entrega a chave dessa lavanderia é justamente a entidade que se diz apolítica, neutra, dedicada apenas à paixão das massas, enquanto distribui sedes como quem distribui favores num cassino.
Há ainda o algoritmo, esse novo oráculo, que segundo o banco de investimento prevê o campeão antes da bola rolar. Curioso como a inteligência artificial, treinada com os mesmos dados que os apostadores institucionais consultam, sempre converge para conclusões úteis a quem já tem posição comprada no mercado de derivativos esportivos. Bilhões serão movimentados em apostas legalizadas, casas de odds patrocinarão transmissões, e o trabalhador que perdeu o salário do mês apostando no palpite do banco será chamado de viciado, nunca de vítima de um sistema desenhado para extraí-lo. O cassino da Copa não está nos estádios, está nos terminais de Bloomberg.
No fim, o que sobra para o cidadão comum, aquele que paga imposto, vê o trânsito fechado, perde o ônibus por causa de comitiva oficial e ainda é convencido a se orgulhar pela bandeira erguida no mastro? Sobra a fatura, parcelada em décadas. Sobra o estádio caríssimo que vira elefante branco quando o circo se muda para o próximo país. Sobra a sensação fugaz de pertencimento, vendida a peso de ouro por quem sabe exatamente quanto vale a emoção alheia no balanço trimestral. Quarenta bilhões em PIB significam quarenta bilhões transferidos, e essa transferência tem direção única: para cima. A bola, no fim das contas, é redonda; o dinheiro é que segue sempre em linha reta.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.