Comecemos pelo fato nu, sem anestesia: a Lafarge, empresa francesa fundada em 1833, símbolo da indústria pesada europeia, fornecedora de cimento para meias-cidades do mundo, foi condenada por um tribunal parisiense por financiar o Estado Islâmico na Síria. Não estamos falando de negligência contábil, de um lançamento errado em planilha, de um intermediário que fugiu do controle. Estamos falando de pagamentos deliberados, estruturados, aprovados por executivos, destinados a garantir que a fábrica de Jalabiya continuasse operando enquanto a Síria ardia. O terror era uma linha do orçamento. O califado, um parceiro de fornecimento.

A lógica da coisa é tão antiga quanto o capitalismo de conluio: quando o custo de parar a produção supera o custo moral de financiar quem degola, a planilha vence a consciência. A Lafarge não inventou esse cálculo. Empresas europeias fizeram negócios com regimes que usavam mão de obra escrava na Segunda Guerra. Corporações americanas venderam tecnologia a ditaduras latino-americanas que desapareciam opositores. Conglomerados petrolíferos britânicos operaram sem pestanejar sob apartheids, golpes e genocídios. O que muda de tempos em tempos é apenas o nome do parceiro criminoso e a quantidade de anos até a condenação. A estrutura é sempre a mesma: lucro agora, prestação de contas talvez nunca, condenação simbólica se as câmeras não desviam o olhar.

Mas o que torna o caso Lafarge particularmente delicioso na sua podridão é o contexto geopolítico em que ele ocorreu. Entre 2013 e 2014, quando a empresa pagava pedágio ao Estado Islâmico para seus caminhões passarem e comprava matéria-prima de grupos armados jihadistas, o Ocidente estava em plena histeria antiterrorista. Bilhões de dólares em contratos de defesa. Coalizões internacionais. Discursos inflamados sobre civilização versus barbárie. E ali, no meio do deserto sírio, uma empresa com sede a quinze minutos da Torre Eiffel mantinha aberta uma fábrica pagando o salário do califado. A guerra ao terror é um negócio seletivo. Terrorista financiado por pobre num porão é inimigo da humanidade. Terrorista financiado por corporação multinacional para garantir margem operacional é, na melhor das hipóteses, um problema jurídico menor.

Os oito ex-funcionários condenados junto com a empresa são, claro, os rostos que o sistema precisa para parecer que fez algo. A narrativa corporativa de crise seguirá o roteiro de sempre: eram decisões individuais, tomadas sem o conhecimento da alta cúpula, numa situação de guerra impossível de controlar, por funcionários que agiram de boa-fé numa zona de conflito imprevisível. A empresa já está a caminho de pagar uma multa que, colocada em perspectiva do faturamento global da Lafarge, equivale ao custo de um jantar de executivos em Paris. O sírio que teve seu bairro bombardeado com o concreto da Lafarge não recebe carta de desculpas. O militante que usou o dinheiro do pedágio para comprar munição não devolve os mortos. A responsabilidade corporativa tem endereço e código postal. Os danos colaterais não.

Há ainda uma camada que o noticiário mainstream raramente tem paciência para descascar: o Estado francês sabia. Não necessariamente os detalhes operacionais, mas sabia que a Lafarge operava numa zona controlada por grupos armados, sabia que algum tipo de arranjo era necessário para isso acontecer, e escolheu, com a elegância discreta de quem finge não ver, não perguntar demais. Empresas do porte da Lafarge não existem num vácuo político. Elas têm lobistas, relações com ministérios, contratos públicos, assentos em conselhos consultivos. O Estado e o grande capital, na Europa como em qualquer outro lugar, são parceiros de longa data num casamento de conveniência. Um fecha os olhos quando o outro precisa. A Síria estava longe. O dividendo estava perto. A investigação levou anos para avançar e mais anos para condenar. Esse é o ritmo da justiça quando o réu tem boa assessoria jurídica e capital político.

No fim, o que o caso Lafarge documenta não é uma aberração. É o funcionamento ordinário de um sistema onde a fronteira entre a empresa legítima e o financiador do terror é administrada por advogados, auditores e press releases. O trabalhador sírio que foi embora porque não aguentou mais, o motorista de caminhão que passou pelo posto de controle do califado rezando para não ser degolado, o refugiado que cruzou o Mediterrâneo porque a guerra chegou à sua rua, nenhum deles aparece no balanço patrimonial da empresa. Eles são o custo externo que nenhuma contabilidade registra. O mercado não precifica o que não tem voz. E quem não tem voz não existe até que um tribunal, décadas depois, pronuncie uma sentença que não devolve nada a ninguém. O concreto da Lafarge segurou as paredes de meio mundo. As vítimas que ajudou a criar não têm sequer uma lápide com o nome da empresa gravado.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.