Há produções de Hollywood que custaram menos e renderam menos do que esse tal filme sobre o capitão. O fundo administrado por um aliado próximo do filho parlamentar, encarregado de gerir a verba do longa hagiográfico, aparece agora como proprietário de uma casa no Texas, e a Polícia Federal investiga o desvio. O enredo é antigo, a locação é nova. Trocaram o set de filmagem pelo cartório de imóveis, e ninguém precisou nem fingir que estava rodando uma cena.
Reparem na engenharia, porque ela é instrutiva. Capta-se dinheiro em nome de uma causa nobre, o mito a ser celebrado, o herói incompreendido, a narrativa que a grande mídia se recusa a contar. O capital chega, atravessa fundos, consultorias, produtoras, prestadores de serviço com nomes pomposos, e na outra ponta materializa-se em tijolo, cimento e jardim aparado em solo estrangeiro. O filme, esse, fica para depois. Ou nunca. O importante já aconteceu na contabilidade, e a contabilidade não exibe sessão de estreia.
Vale a pergunta que organiza qualquer escândalo dessa estirpe: quem pagou e quem recebeu? Pagaram os crédulos que abriram a carteira em nome da causa, pagaram os contribuintes sempre que houver migalha de incentivo fiscal envolvida, pagou o cidadão comum que vê o Estado sangrá-lo todo mês na fonte enquanto a elite militante de qualquer lado do espectro converte indignação em metro quadrado. Recebeu, como sempre, quem estava na sala onde as decisões foram assinadas. O resto é figuração.
O detalhe geográfico merece sarcasmo próprio. O Texas, esse pedaço de chão que esses mesmos personagens costumam invocar como bastião da liberdade contra a tirania bolivariana, virou o refúgio confortável do espólio. Curioso como o capital, esse covarde lúcido, sempre sabe para onde correr quando o discurso patriótico esgota sua utilidade prática. Pregam soberania para a plateia e compram imóvel em dólar para si mesmos, e ainda esperam que ninguém note a piada.
A lógica é elementar e dispensa rodeios. Se a função declarada de uma estrutura é produzir cinema e o produto entregue é patrimônio imobiliário no exterior, a estrutura não é o que diz ser. As coisas se definem pelo que fazem, não pelo verbete que escolhem colar na fachada. Chama-se fundo cultural, opera como veículo de transferência, termina como escritura. O nome é fantasia, a função é a verdade, e a Polícia Federal, quando trabalha, apenas redige a legenda óbvia que todo mundo já viu na tela.
Resta o moral da fábula, que não é moral nenhuma, é aritmética. Toda vez que se cria um fundo, um incentivo, uma rubrica, um mecanismo de captação carimbado por causa nobre, está-se abrindo uma torneira cujo destino final raramente é o anunciado no folheto. O dinheiro tem gravidade própria e cai sempre no mesmo lugar, na mão de quem desenhou o cano. Direita, esquerda, centro, qualquer figurino serve, porque o figurino é o que se mostra na coletiva e a tubulação é o que opera no escuro. E enquanto o cidadão discute o trailer, o filme verdadeiro já foi rodado, montado e exibido em sessão fechada no condado vizinho a Austin.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.