Na última cerimônia de libertação de Buchenwald, o ministro da Cultura alemão Wolfram Weimer tentou subir ao pódio e foi recebido com vaias e o epíteto "fascista" ecoando sobre as cinzas de oitenta mil mortos. A cena seria apenas grotesca se não fosse, ao mesmo tempo, absolutamente reveladora. Num campo onde o Estado alemão exterminou seres humanos com a precisão burocrática que o tornara famoso, os descendentes institucionais daquele mesmo Estado se reúnem anualmente para proclamar que aprenderam a lição. E alguém, desta vez, teve a insolência de não acreditar neles.
O gesto do protesto é compreensível. A escolha do insulto, no entanto, diz mais sobre a pobreza intelectual do tempo presente do que sobre qualquer virtude moral dos que o proferiram. "Fascista" virou moeda tão inflacionada quanto o marco de Weimar: quanto mais se imprime, menos vale. Quando a palavra serve igualmente para descrever Hitler e um ministro conservador que tentava fazer um discurso institucional, ela deixou de ser uma categoria analítica e se tornou um projétil de borracha. Dói, mas não mata ninguém. E pior: protege os alvos reais. Porque enquanto a palavra voa para os rostos errados, os processos concretos de concentração de poder, controle da informação, expansão do aparato de vigilância e militarização progressiva da política externa alemã seguem intocados, aplaudidos até por quem grita mais alto.
A Alemanha pós-guerra construiu sua identidade sobre a culpa. É um projeto notável, talvez único na história: um Estado que faz da autopunição simbólica o fundamento de sua legitimidade. A cada aniversário, a cada memorial inaugurado, a cada "nunca mais" pronunciado diante de câmeras, o Estado alemão compra um crédito moral que depois usa para fazer exatamente o que quiser. Com esse crédito acumulado, Berlin pôde anunciar uma virada histórica no gasto militar, injetar cem bilhões de euros numa máquina de guerra que havia décadas fingia ser pacifista, enviar armas para zonas de conflito ativo e debater com toda a seriedade do mundo se deveria mandar mísseis de longo alcance para território russo. Tudo isso com a bênção dos guardiões da memória, que passaram os últimos trinta anos garantindo que a Alemanha havia se redimido o suficiente para merecer novamente um exército real. O "nunca mais" tem uma cláusula de exceção que ninguém lê: nunca mais, a menos que a OTAN precise.
Siga o dinheiro, como sempre. A indústria de defesa alemã, Rheinmetall à frente, registrou lucros históricos desde que o conflito no leste europeu acendeu o apetite por armamentos. As ações subiram, os contratos se multiplicaram, os lobbistas percorreram os corredores do Bundestag com uma desenvoltura que nenhum campo de concentração parece ter inibido. A cada discurso solene em Buchenwald, um pedido de orçamento avança em Berlim. A cada lágrima derramada diante das fotografias de 1945, uma fábrica de munição amplia seu turno noturno. Não é cinismo gratuito. É o mecanismo básico de como as democracias ocidentais funcionam: o passado serve de combustível moral para o presente lucrativo. Transformar o genocídio em capital simbólico é, a rigor, a mais alemã de todas as indústrias do século XXI.
E nesse cenário, o que representa exatamente o ministro Weimer? Provavelmente muito pouco, para bem ou para mal. É um funcionário de Estado fazendo o que funcionários de Estado fazem: ocupar o espaço cerimonial que lhe foi designado, proferir as palavras que o roteiro exige, ser fotografado no lugar apropriado. O fato de ter sido vaiado não o torna nem herói nem vilão. Torna-o, quando muito, um termômetro. A temperatura política na Europa está tão elevada, a palavra "fascismo" circula tão solta, que até uma aparição protocolar num memorial transforma-se em campo de batalha. O que assusta não é que o chamaram de fascista. O que assusta é que ninguém no plenário perguntou o que estavam todos ali fazendo juntos, representando instituições que cresceram, se armaram, sancionaram, bloquearam e bombardearam enquanto repetiam que a história havia lhes ensinado algo.
Buchenwald liberta seus mortos uma vez por ano para que os vivos possam fingir que são diferentes daqueles que os mataram. É a maior liturgia do Estado moderno: a confissão pública que não muda nada, a memória que serve ao esquecimento, o ritual que imuniza contra a reflexão. O indivíduo que morreu ali não tinha partido, não tinha lobby, não tinha contrato de reconstrução nem ação na bolsa. Tinha apenas um corpo que o Estado decidiu que era descartável. Essa é a lição que nenhum ministro vai ao pódio pronunciar. Porque essa lição, se levada a sério, tornaria o pódio impossível.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.