O drone FV-014 da Rheinmetall, projetado para voar contra alvos inimigos e destruí-los numa explosão suicida, demonstrou em testes recentes uma capacidade devastadora de não destruir absolutamente nada, nem mesmo réplicas infláveis de tanques, o tipo de alvo que militares usam para enganar satélites e que, fora do campo de batalha, se encontra na prateleira de lojas de festa. A notícia poderia ser constrangedora para uma empresa que construiu sua reputação industrial sobre o ferro e o fogo de duas guerras mundiais. Mas constrangimento é uma emoção cara demais para quem opera na indústria de defesa europeia, onde o fracasso técnico raramente atrapalha o fluxo de caixa.

A Alemanha decidiu, após décadas de relativo pacifismo orçamentário, que chegou a hora de rearmar-se com vigor. O governo alemão criou um fundo especial de cem bilhões de euros para modernizar suas forças armadas, uma cifra que faz os olhos de qualquer executivo do setor brilharem com a intensidade de um míssil termoguiado. A Rheinmetall, empresa com sede em Düsseldorf e ações negociadas na bolsa de Frankfurt, viu seu valor de mercado triplicar desde que os canhões voltaram a troar na Europa. O timing é impecável: a guerra na Ucrânia chegou como um catalisador providencial para uma indústria que precisava de um argumento novo para justificar contratos antigos. O medo voltou ao cardápio europeu, e medo é a mais lucrativa das matérias-primas.

O mercado de munições de vagabundagem, como são chamados esses drones que circulam sobre o campo de batalha à espera de um alvo, é um dos segmentos mais cobiçados da nova corrida armamentista europeia. Israel exportou a tecnologia, os americanos aperfeiçoaram, e agora cada governo do Ocidente quer sua versão nacional, de preferência fabricada em solo doméstico para criar empregos e financiar campanhas eleitorais. A Rheinmetall entrou na disputa com o FV-014 e agora descobre, aparentemente com surpresa, que construir uma arma que de fato funciona é ligeiramente mais difícil do que conseguir o contrato para tentar construí-la. O contribuinte alemão, naturalmente, paga pelo aprendizado.

Existe um padrão histórico tão repetido que já adquiriu a dignidade monótona de lei natural: programas de armamento falham nos testes, custam o dobro do previsto, atrasam anos em relação ao cronograma inicial e são aprovados para a próxima fase de desenvolvimento assim mesmo. O caça F-35 americano levou duas décadas e mais de um trilhão de dólares para ser considerado operacional, durante as quais a Lockheed Martin pagou dividendos generosos e seus executivos receberam bônus substanciais. O padrão se repete porque o cliente, o Estado, não paga com dinheiro próprio. Paga com dinheiro de um terceiro que não foi consultado, não aprovou e provavelmente nem sabe que está bancando um drone incapaz de furar um brinquedo inflável.

A ironia mais fina não está no drone que falhou. Está no fato de que a Rheinmetall continuará competindo pelo contrato. Os testes serão repetidos, os parâmetros serão renegociados, os consórcios serão reestruturados e os lobistas continuarão frequentando os mesmos restaurantes de Berlim que os burocratas do Ministério da Defesa. A guerra, quando finalmente algum desses drones chegar ao campo de batalha, já terá terminado ou mudado de forma. Mas o contrato terá sido assinado, o dinheiro terá sido transferido e os acionistas terão embolsado o lucro de uma urgência fabricada às custas de um perigo real. O soldado que um dia apertar o botão de lançamento descobrirá, no pior momento possível, que seu equipamento tem o desempenho de um balão de festa. O executivo que assinou o contrato, nesse dia, estará na sua casa de veraneio.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.