Veio o balanço do terceiro trimestre da Goodman Group, gigante australiana de galpões logísticos e, cada vez mais, de data centers, e o mercado piscou os olhos diante do óbvio: a empresa está reciclando ativos a um ritmo industrial, vendendo o que envelheceu, comprando terreno onde a demanda berra, e empilhando capital para o ciclo de inteligência artificial que está engolindo energia elétrica como locomotiva a vapor. Cinco bilhões de dólares australianos em ativos sob desenvolvimento, parcerias estratégicas com fundos soberanos, capital próprio bem dosado com dívida barata travada antes da curva subir. Quer dizer, eles fazem o feijão com arroz que qualquer aluno de primeiro ano de economia deveria entender, e o mercado trata como milagre porque está acostumado com gestão pública.
O detalhe interessante não está no que a Goodman fez, está no que ela pode fazer. Empresa privada, capital privado, decisão privada, risco privado. Se errar, o acionista perde. Se acertar, o acionista ganha. Não há comitê interministerial decidindo onde construir o próximo data center, não há audiência pública de seis meses para autorizar a compra de um terreno em Sydney, não há ministro do desenvolvimento dizendo que a Austrália precisa de "soberania logística". Eles olham para o preço, olham para a demanda, fazem a conta, e tocam. É deselegante de tão simples.
Agora compare com o galpão logístico brasileiro. Por que custa o que custa? Porque o terreno demorou dois anos para sair do alvará, porque a outorga onerosa engoliu vinte por cento do CAPEX, porque o ICMS muda de Estado para Estado e exige uma equipe tributária só para entender a guia, porque o caminhão que vai entregar a mercadoria pega o pedágio mais caro do mundo, porque o diesel está embutido com tributo sobre tributo, porque a CLT congelada nos anos 40 transforma cada contratação em armadilha jurídica. E aí o varejista repassa tudo no preço do tênis, do leite, do remédio. Quem paga a conta da ineficiência regulatória brasileira não é o regulador, é a dona de casa no caixa do mercado.
O que se vê é o data center inaugurado com fita simbólica e ministro sorridente. O que não se vê é o investidor estrangeiro que olhou para o Brasil, viu o manicômio tributário e foi construir no Chile, no México, na Colômbia. O que não se vê é o empreendedor brasileiro que desistiu do galpão próprio e ficou alugando porque a matemática do crédito subsidiado pelo BNDES só fecha para quem tem padrinho político. O que não se vê é o emprego que não foi gerado, o salário que não foi pago, o imposto que não foi recolhido, e a inflação imobiliária artificial que o subsídio cruzado fabrica.
E tem ainda o capítulo data center, que merece um parêntese inteiro. A Austrália está construindo capacidade computacional como se o mundo dependesse disso, e provavelmente depende. A Goodman amarrou contratos de energia, terreno, fibra ótica, refrigeração, tudo no privado, tudo com retorno calculado em planilha. Aqui, enquanto isso, o debate público é se vamos taxar o lucro do data center antes mesmo de ele existir, se vamos exigir cota de processamento "nacional", se vamos criar uma estatal para "garantir soberania digital". A receita para garantir que nenhum hyperscaler de respeito invista pesado no Brasil já está escrita, e quem assina é o mesmo congresso que depois lamenta a fuga de capitais.
O recado do balanço australiano não é sobre a Austrália. É um espelho. Mostra o que acontece quando se deixa o capital decidir onde ir, quando a regulação cabe em vinte páginas e não em vinte mil, quando o contrato é cumprido e o tributo é previsível. O Brasil tem terreno, tem energia limpa de sobra, tem mão de obra disponível, tem posição geográfica privilegiada. Tem tudo, menos uma coisinha simples: liberdade para o investidor calcular o risco sem precisar de um xamã para adivinhar o próximo decreto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.