Romuald Wadagni, ex-ministro das Finanças do presidente Patrice Talon, está a caminho de herdar o poder no Benin com a naturalidade de quem recebe uma pasta numa reunião de conselho administrativo. Nenhum drama, nenhuma ruptura, nenhuma surpresa. O homem que cuidou das contas do governo agora será o governo, e isso diz tudo o que a imprensa ocidental não vai dizer: quando um ex-ministro das Finanças vence uma eleição presidencial em um país subsaariano, o que muda não é quem governa, é quem assina os contratos.

Patrice Talon, o homem que Wadagni serviu por anos, é um bilionário do algodão. Construiu sua fortuna no mesmo setor que domina as exportações do Benin, o mesmo setor que depende do franco CFA, aquela moeda colonial com outro nome, atrelada ao euro e garantida pelo Tesouro francês em troca de reservas depositadas em Paris. A França não tem tropas em todos os países do Sahel por acidente histórico. Ela tem interesses, e interesses precisam de governos administráveis, de ministros das finanças que conheçam o vocabulário do FMI e assinem os acordos sem fazer perguntas inconvenientes sobre soberania monetária. Wadagni conhece esse vocabulário fluentemente.

O norte do país em chamas é apresentado como o grande desafio do presidente eleito, como se a insurgência jihadista fosse uma calamidade natural que caiu do céu sobre o Benin, o Togo e a Costa do Marfim ao mesmo tempo. Não caiu. Ela migrou, empurrada pelo colapso sistemático do Mali e do Burkina Faso depois de décadas de intervenções ocidentais que destruíram estruturas de poder locais sem construir nada em seu lugar. O vácuo foi preenchido por grupos armados. Esse vácuo tem endereço e data de nascimento. Agora o mesmo Ocidente que criou o problema oferece a solução: mais contratos de segurança, mais equipamento militar, mais "parceria estratégica" com países que têm petróleo, urânio e rotas de tráfico de cocaína sul-americana com destino à Europa. O Golfo de Guiné não está em crise, está em disputa.

O custo de vida, a outra "questão séria" que os analistas elegantes mencionam como se fosse um problema de política pública mal calibrada, é resultado direto de décadas de ajuste estrutural que privatizaram os lucros e socializaram a miséria. O Benin recebeu empréstimos do Banco Mundial, do FMI, da União Europeia, e cada empréstimo veio com condicionalidades que reduziram subsídios, abriram mercados e expuseram agricultores locais à competição com produtos subsidiados da Europa. O agricultor beninense que plantava para se alimentar hoje planta algodão para exportar, compra arroz importado para comer e não entende por que está mais pobre do que seu avô. Ele não está desinformado. Ele está sendo economicamente liquidado de forma metódica e documentada.

A eleição, naturalmente, foi realizada. Os observadores internacionais provavelmente a declararam "livre e transparente" com o entusiasmo de quem carimba um formulário, porque a democracia liberal africana não precisa ser competitiva, precisa ser funcional o suficiente para legitimar quem já estava no poder. Wadagni ganhou porque era o candidato do governo, e o governo do Benin ganhou porque é o interlocutor preferido dos credores, das multinacionais do algodão e dos estrategistas franceses que ainda tratam a África Ocidental como pátio dos fundos de uma república que não admite que perdeu seu império. O eleitor beninense escolheu dentro de um cardápio montado antes de ele chegar ao restaurante.

No fim, o homem que administrou as finanças do Estado agora administrará o Estado inteiro, o norte ardendo em insurgência será o pretexto perfeito para expandir o aparato de segurança com dinheiro emprestado a juros, o custo de vida continuará sendo o problema que justifica mais programas internacionais de ajuda com contratos anexos, e o cidadão comum do Benin continuará financiando, com seu trabalho e sua pobreza, a estabilidade que outros precisam que ele mantenha. A democracia chegou à África. O africano ainda está esperando chegar sua vez.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.