Há algo profundamente revelador no fato de uma potência que mantém setecentas e tantas bases militares espalhadas pelo planeta resolver, justamente agora, inaugurar um consulado numa cidade de menos de vinte mil almas. Nuuk não é um centro financeiro, não é um polo industrial, não é sequer um ponto turístico relevante. É uma capital ártica de fiordes, casas coloridas e pescadores. O que ela tem, e que justifica a súbita generosidade diplomática de Washington, é o subsolo. Terras raras, urânio, lítio, cobalto, zinco, petróleo e gás esperando, sob camadas de permafrost que o aquecimento global está derretendo com a pontualidade de um cronograma corporativo. Consulado, neste caso, é eufemismo polido para escritório de prospecção avançada.

Os groenlandeses entenderam o recado e responderam à altura. Saíram às ruas com cartazes, faixas e a memória ancestral de quem já foi colônia dinamarquesa por trezentos anos e sabe identificar, à primeira vista, o cheiro de uma nova metrópole se aproximando. A população local, majoritariamente inuíte, vive da pesca, da caça e de subsídios de Copenhague que somam algo perto de meio bilhão de dólares anuais. Não é riqueza, é dependência. E é exatamente essa dependência que faz o império do norte salivar, porque substituir um pagador modesto por um pagador generoso é o truque mais antigo da geopolítica de aquisição.

Convém lembrar que a oferta de compra da ilha não é piada de campanha eleitoral. Foi proposta formalmente em mil novecentos e quarenta e seis, quando o Departamento de Estado ofereceu cem milhões de dólares em ouro à Dinamarca, oferta repetida em variações tragicômicas até os dias atuais. A Base Aérea de Thule, hoje rebatizada de Pituffik, opera há setenta anos como olho eletrônico apontado para Moscou, com radares capazes de detectar mísseis balísticos antes que se decida quem vai chorar primeiro. Os contratos de manutenção dessa base, sozinhos, alimentam a Lockheed, a Raytheon e meia dúzia de empreiteiras cujos acionistas jamais pisaram no Ártico, mas faturam alto com cada flocon de neve estratégico.

A narrativa oficial fala em parceria, cooperação, presença diplomática reforçada. Tradução para o vernáculo: quem chega com consulado, depois manda engenheiro, depois geólogo, depois contrato de exploração, depois soldado para proteger o investimento, depois bandeira nova no mastro. O roteiro é tão velho que aborrece. Foi assim no Havaí, foi assim em Porto Rico, foi assim nas Filipinas, foi assim no Panamá, foi assim em cada pedaço de terra onde alguém descobriu que o subsolo valia mais do que a soberania dos que pisavam em cima dele. A diferença é que, no século vinte e um, ninguém precisa mais desembarcar fuzileiros. Basta abrir uma sala com ar-condicionado, contratar uma equipe de vinte funcionários e esperar o tempo, ou o degelo, fazer o resto do trabalho.

Enquanto isso, a Dinamarca finge soberania, a Groenlândia finge autonomia, os Estados Unidos fingem amizade e a China, espreitando do outro lado do círculo polar, prepara suas próprias propostas. O cidadão comum de Nuuk, aquele que pesca bacalhau no escuro e paga combustível mais caro do que qualquer europeu, será informado por terceiros de que seu território virou peça num tabuleiro onde ele nunca foi convidado a jogar. Quando a primeira mineradora começar a operar, ele descobrirá que o emprego prometido é de salário baixo, que a água do fiorde mudou de cor, que o caribu sumiu, e que o consulado de hoje virou embaixada amanhã. E vão chamar isso de progresso.

O Ártico está derretendo, e com ele derretem também as últimas ilusões sobre o que significa diplomacia entre potências e povos pequenos. Onde há gelo, abre-se rota. Onde há rota, planta-se bandeira. Onde há bandeira, cobra-se pedágio. O resto é folclore para consumo de quem ainda acredita em comunicados oficiais.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.