Trezentos e trinta e um vírgula quarenta e sete por cento. Esse número, seco e sem piedade, resume o que aconteceu com as exportações brasileiras para o bloco do Golfo em março deste ano: uma queda de quase um terço na comparação anual, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Quinhentos e trinta e sete milhões de dólares no total, quando o período anterior marcava cifras bem mais robustas. A guerra no Oriente Médio é o pano de fundo óbvio, a explicação pronta que qualquer assessor de imprensa vai usar para encerrar a conversa antes que ela comece. Só que guerras não surgem do nada, e vulnerabilidades comerciais tampouco. As duas coisas têm história, têm causa, têm responsáveis, e nenhum deles vai comparecer na coletiva de imprensa para prestar contas.

Existe uma lei de ferro no comércio internacional, tão antiga quanto as rotas de caravanas que ligavam Petra ao Mediterrâneo: confiança se constrói em décadas e se destrói em discursos. Quando um país passa anos sinalizando simpatias a regimes que os parceiros do Golfo enxergam como inimigos declarados, quando a diplomacia nacional abraça publicamente Teerã enquanto tenta, ao mesmo tempo, vender frango e soja para Riad, o resultado não é equilíbrio, é desconfiança multiplicada dos dois lados. O comprador árabe não precisa de garantias formais para deslocar contratos, basta a dúvida. E a dúvida, no mercado, é suficiente para redirecionar bilhões para quem não complica.

A lógica do Estado brasileiro em matéria de política comercial externa tem uma característica peculiar que seria cômica se não fosse tão cara: ele trata o setor privado exportador como um dado imutável da natureza, como o sol que vai nascer independentemente do que façam os homens em Brasília, e por isso pode ser ignorado quando as preferências ideológicas da vez exigem posturas diplomáticas que nenhum empresário sério endossaria. O produtor de carne bovina do Mato Grosso, o exportador de petroquímicos do Sul, o frigorífico que dependia de certificações e canais consolidados com importadores do Golfo, nenhum deles foi consultado sobre o tom das notas diplomáticas, sobre os votos na ONU, sobre os abraços fotográficos em cúpulas de países que os árabes sunitas consideram adversários existenciais. Foram apenas informados, depois, pela planilha de março.

Há uma distinção fundamental que a análise econômica séria nunca cansa de repetir e que o jornalismo político brasileiro quase nunca aplica: o custo visível e o custo invisível. O custo visível é o número que a CCAB publicou, os 537 milhões que foram, a queda de 31%. O custo invisível é o contrato que não foi renovado silenciosamente em fevereiro, o importador do Kuwait que ligou para o concorrente argentino sem nem avisar, o distribuidor de Jeddah que tirou o produto brasileiro do portfólio preventivamente, antes que qualquer pressão política formal o obrigasse. Esses números não aparecem em nenhum relatório porque nunca chegaram a existir como transação concluída. São riquezas que não foram geradas, empregos que não foram criados, receita que evaporou antes de condensar. O Estado nunca contabiliza o que impediu de acontecer, só o que conseguiu destruir depois que aconteceu.

A guerra em si é real, trágica e desestruturante para qualquer cadeia logística que passe pelo Estreito de Ormuz ou pelas rotas do Mar Vermelho. Isso ninguém nega. Mas existe uma diferença substancial entre sofrer os efeitos de uma crise geopolítica que está além do seu controle e ter fragilizado previamente, por escolhas deliberadas de política externa, a resiliência dos laços comerciais que permitiriam atravessar essa mesma crise com menos dano. Um país com décadas de relações sólidas, previsíveis e politicamente neutras com os compradores do Golfo perderia mercado em março, sim. Mas perderia muito menos, porque teria capital de confiança acumulado para acionar. Capital esse que se gasta em anos de ambiguidade antes mesmo de a bomba cair.

No fim, o que a estatística da CCAB documenta não é apenas o impacto de uma guerra distante sobre os números brasileiros de março. Documenta o preço de tratar a política comercial como subproduto da política ideológica, de confundir diplomacia com militância, de imaginar que os mercados são pacientes o suficiente para esperar que o país se decida sobre quem são seus amigos. Não são. Os mercados têm memória seletiva e agenda cheia. Quando a confiança some, o contrato vai junto, e nenhum discurso em plenário traz de volta o negócio que a Argentina fechou no lugar do Brasil enquanto o Itamaraty estava ocupado com outras prioridades.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.