O diretor senta na cadeira de entrevista e diz que há "um mistério, há segredos" no filme, com aquele ar de quem revelou a localização do Santo Graal. O elenco acena. A Jovem Pan transmite. O público assiste. E ninguém faz a pergunta óbvia: se há um mistério no filme, a função do filme é resolvê-lo ou vendê-lo indefinidamente como produto de prateleira? Porque existe uma diferença brutal entre o enigma que conduz à verdade e o enigma que conduz à bilheteria seguinte, e a indústria do entretenimento consolidou, nos últimos cinquenta anos, uma competência extraordinária em transformar a segunda opção na única disponível.
A múmia como figura narrativa tem uma genealogia honesta. Os egípcios entendiam a morte como portal, não como parede, e construíam seus rituais funerários com uma seriedade metafísica que faria corar qualquer terapeuta contemporâneo de autoajuda. O que "desperta" numa tumba milenar, na cosmologia original, não é um monstro domesticado pela Universal Pictures, mas a perturbação de uma ordem simbólica que o vivo violou ao violar o limite entre os mundos. Há ali uma lição moral séria: existem domínios que a arrogância humana não deveria cruzar sem preparação e sem reverência. O cinema, com sua fome industrial de franquias, pegou essa lição e a transformou em efeitos especiais, o que é o equivalente cultural de transformar o Livro de Jó num tutorial de resiliência corporativa.
Mas o que incomoda de verdade não é o filme em si. Todo entretenimento tem o direito de ser o que é, inclusive medíocre. O que incomoda é o ritual de lançamento, esse ecossistema de entrevistas coordenadas onde ninguém diz absolutamente nada mas todos falam com muita intensidade. O ator diz que "mergulhou fundo no personagem". A diretora diz que "respeitou a mitologia". O produtor não aparece, porque o produtor nunca aparece, que é exatamente onde ele prefere estar. Siga o dinheiro e você descobre que o "mistério" mais interessante não está na tumba fictícia, mas na cadeia de decisões financeiras que determinou qual história seria contada, com qual orçamento, para qual mercado, com qual mensagem embutida. Isso, sim, dorme num silêncio muito mais cuidadosamente guardado do que qualquer sarcófago.
A cultura popular tem uma função que vai além do entretenimento, e quem nega isso não entendeu nem a cultura nem o político. Toda narrativa que circula em escala industrial é, simultaneamente, um argumento sobre como o mundo funciona. Uma história sobre uma tumba que desperta "forças adormecidas há séculos" pode ser inocente como popcorn, ou pode ser a enésima variação de um argumento cultural que diz ao espectador: o passado é ameaçador, o antigo é perigoso, o que foi enterrado deve permanecer enterrado. O tradicionalismo como horror. A memória como maldição. A herança como praga. Não estou dizendo que foi intencional. Estou dizendo que, intencional ou não, o efeito existe, e a ausência de consciência sobre ele não o anula, apenas o torna mais eficaz.
O gênero de horror egípcio nasceu no século XIX junto com a febre arqueológica europeia, que era, convenientemente, também a era do imperialismo mais desvergonhado. Os britânicos saqueavam tumbas durante o dia e financiavam romances sobre a maldição das tumbas à noite, o que tem uma elegância perversa: você rouba o patrimônio de um povo, depois fabrica ficção para provar que esse patrimônio te persegue por tê-lo tocado. A culpa vira entretenimento e o entretenimento absolve a culpa. Hollywood herdou esse complexo sem precisar declarar a herança em cartório, e produz até hoje esse ciclo de fascínio e medo pelo "outro ancestral" com a mesma inconsciência de quem assobia no escuro.
Que o filme seja bom ou ruim, o tempo dirá, e o público brasileiro, que tem o hábito sadio de fazer sucesso ou fracasso independentemente do que a crítica especializada decida, dará seu veredicto sem pedir permissão. O que não custa é entrar na sala com os olhos abertos para as duas histórias que qualquer filme conta: a que está na tela e a que está em volta da tela. A primeira tem múmias. A segunda tem contratos, acordos de distribuição, estratégias de marketing e decisões tomadas em salas sem janela por pessoas cujos nomes não aparecem nos créditos. Qual das duas é o verdadeiro mistério? Qual das duas nunca vai para o cartaz?
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.