Chamam de "hard power" o que, em linguagem honesta, seria simplesmente coerção organizada com selo de governo. A academia, com aquela competência peculiar de batizar o óbvio com nomes gregos e ingleses para que pareça ciência, empacotou em dois termos o que os impérios fazem desde que o primeiro rei descobriu que um exército convence mais rápido do que um argumento. Não se trata de conceito novo. Trata-se de conceito antigo com terno novo, apresentado em universidades que formam os quadros da mesma estrutura que o conceito descreve, o que cria uma circularidade intelectual cujo único produto é a perpetuação do privilégio daqueles que controlam os canhões e os cofres.

A definição canônica do poder duro diz que é "a capacidade de um Estado impor sua vontade" por meios militares e econômicos. Note o verbo: impor. Não persuadir, não convencer, não seduzir, não vencer pelo argumento. Impor. Toda a filosofia política dos últimos três mil anos girou em torno da questão de quando, se alguma vez, a imposição da vontade de uns sobre outros é legítima. A ciência política contemporânea pulou essa questão e passou direto para o manual de operação da imposição. É como se um livro de medicina saltasse da ética do juramento hipocrático e fosse direto para as dosagens letais. Conveniente para quem escreve o manual. Inconveniente para quem leva o tiro.

As sanções econômicas, apresentadas como o braço "limpo" do poder duro, merecem atenção especial, porque são o instrumento pelo qual governos ricos punem populações inteiras pela política dos seus governantes, com a vantagem adicional de não exigirem uniforme nem deixarem crateras visíveis por satélite. Uma sanção é um bloqueio. Um bloqueio é uma privação forçada. Uma privação forçada de alimentos, medicamentos e combustível, aplicada sobre cidadãos que não votaram na política que a gerou, é, por qualquer critério moral que não seja o da conveniência geopolítica, um ato de violência em câmera lenta. O Iraque dos anos noventa perdeu, segundo estimativas conservadoras, meio milhão de crianças para os efeitos colaterais das sanções internacionais. A secretária de Estado americana da época, questionada sobre esse número em rede nacional, respondeu que "valia a pena". Isso é hard power com rosto humano.

Roma não chamava de "hard power" o que fazia quando alinhava legiões na fronteira de uma cidade que resistia ao tributo. Chamava de civilização. A Grã-Bretanha não chamava de coerção o bloqueio naval com que protegia seus mercados cativos ao redor do globo. Chamava de livre comércio. Os Estados Unidos não chamam de império as trezentas bases militares espalhadas por mais de setenta países, financiadas pelo contribuinte americano e pela impressão de papel-moeda que o mundo é obrigado a absorver por conta da hegemonia do dólar. Chamam de presença estratégica e segurança global. Cada era tem seu eufemismo preferido, e o eufemismo sempre serve ao mesmo propósito: tornar palatável ao povo que paga a conta aquilo que seria intolerável se descrito com precisão cirúrgica. "Hard power" é o eufemismo do nosso tempo, academicamente higienizado, estrategicamente útil e moralmente vazio.

Siga o dinheiro e encontrará a lógica que a teoria esconde. Os países que mais exercem o poder duro são, curiosamente, os mesmos que possuem os maiores complexos industriais de defesa, as bancadas parlamentares mais generosamente financiadas por fabricantes de armamentos e as maiores fatias do PIB devotadas a gastos militares. Não é coincidência, é estrutura. Quando um Estado gasta um trilhão de dólares por ano em capacidade bélica, a pressão institucional para que essa capacidade seja usada, ou ao menos demonstrada com regularidade, é tão intensa quanto a de qualquer outra indústria que precisa justificar seu orçamento perante acionistas. Guerras e sanções não são apenas respostas a ameaças externas. São, com uma frequência perturbadora, o produto de uma máquina que precisa operar para sobreviver e que encontrou no discurso da segurança nacional o melhor dos argumentos para nunca ser desmontada.

O problema do "hard power" não é técnico. Não é que os Estados o exercem mal ou que precisam de melhor estratégia ou de mais diplomacia complementar para temperá-lo. O problema é estrutural: ele pressupõe que existe uma entidade, o Estado, com o direito legítimo de coagir outros povos em nome de interesses que ela mesma define, usando recursos que ela mesma extorquiu de sua própria população por meio da tributação compulsória. Quando se ilumina a arquitetura completa do fenômeno, o que se vê não é política externa sofisticada. É o racket mais antigo da história da civilização, agora com departamento de relações públicas, cadeira nas melhores universidades e coluna semanal em revistas de análise internacional que ninguém leu antes de chegar à conclusão que já tinha.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.