A notícia chega embrulhada na linguagem burocrática que Washington reserva para os escândalos que prefere não ter. O Pentágono, segundo vazamentos convenientemente cronometrados, classificou a espionagem israelense como ameaça de nível crítico, o mesmo patamar reservado a Rússia, China e Irã. Traduzindo do dialeto imperial para o português dos mortais, isso significa que o "maior aliado" dos Estados Unidos no Oriente Médio é tratado, nos relatórios internos, como adversário ativo. A descoberta tem o mesmo grau de novidade que descobrir água molhada, já que desde os anos oitenta, quando um analista naval foi pego entregando documentos secretos a Tel Aviv, a comunidade de inteligência americana sabe exatamente com quem está lidando. A diferença é que agora alguém resolveu colocar no papel aquilo que todos os corredores de Langley sussurravam no cafezinho.
O cinismo da situação atinge níveis quase cômicos quando se observa o fluxo de caixa. Os mesmos Estados Unidos que classificam Israel como ameaça crítica de espionagem repassam, ano após ano, quase quatro bilhões de dólares em assistência militar para o país. É o equivalente a pagar mensalidade para o ladrão que arromba sua casa, com a justificativa de que ele é um ladrão estratégico, alinhado a valores compartilhados. O contribuinte americano, aquele camarada que acorda às cinco da manhã para pegar metrô em Ohio, financia simultaneamente os satélites que vigiam Tel Aviv e os caças F-35 que Tel Aviv usa para bombardear Gaza. Coerência nunca foi virtude imperial, mas essa contradição em particular tem um cheiro especial de podre.
Vale lembrar a quem aproveita esse arranjo grotesco. Não é o soldado raso americano patrulhando bases na Síria, certamente não é o jovem palestino enterrado sob escombros em Rafah, e definitivamente não é o cidadão israelense comum que paga impostos altíssimos para sustentar uma máquina de guerra permanente. Os beneficiários têm endereço fixo nas bolsas de Nova York e Tel Aviv. Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, Elbit Systems, Rafael Advanced Defense Systems. Empresas cujas ações sobem cada vez que um míssil cruza o Mediterrâneo. A ajuda militar americana funciona como subsídio circular, o dinheiro sai do bolso do trabalhador, passa pelo Tesouro, é repassado a Israel como "ajuda", e retorna como pedido de compra para a indústria bélica americana. Genialidade contábil que faria corar qualquer engenheiro financeiro.
A elevação do alerta de espionagem não nasce do vácuo. Ocorre num momento em que o establishment de inteligência americano está rachado quanto ao envolvimento direto no atoleiro do Oriente Médio. Há facções dentro do próprio governo, particularmente entre militares de carreira que viram colegas morrerem em guerras inúteis, que estão fartas de descobrir suas próprias operações vazando na imprensa de Tel Aviv antes mesmo de chegarem ao Salão Oval. Histórias semelhantes pontuam a história das alianças. Roma manteve aliados clientes que conspiravam contra ela; o Império Britânico se ressentiu da Companhia das Índias quando ela começou a ter política externa própria; toda potência hegemônica eventualmente descobre que seus protegidos têm agenda. O detalhe é que Roma, ao menos, não pagava ao aliado para ser traída.
O custo dessa farsa, como sempre, é pago em sangue alheio e dinheiro do contribuinte. Enquanto burocratas debatem em salas climatizadas em Arlington se a espionagem aliada merece selo carimbado de crítica ou meramente severa, civis em Gaza são reduzidos a estatísticas, soldados israelenses morrem em túneis subterrâneos, e o americano médio descobre que sua aposentadoria foi corroída pela inflação que financia tudo isso. A relação especial nunca foi especial para o cidadão comum, foi sempre especial para os acionistas. Os impérios sempre acabam descobrindo, tarde demais, que seus aliados mais leais são aqueles que mais lhes custam. E ninguém arruína um império mais rápido do que seus próprios amigos.
Quando o governo finalmente admite, mesmo que em documento classificado vazado de forma convenientemente seletiva, que o aliado espiona com agressividade de inimigo, resta uma única pergunta honesta. Por que continuar pagando? A resposta, infelizmente, está escrita nos relatórios trimestrais das empresas de defesa cotadas em bolsa. A política externa americana não é decidida no Departamento de Estado, é decidida nos conselhos de administração que dependem de tensão permanente no Levante para justificar dividendos crescentes. Tudo o mais é teatro para os ingênuos.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.