A notícia chega embrulhada em papel de presente, com laço e tudo. Uma fabricante japonesa lança um modelo popular que rende quase cinquenta quilômetros por litro, e o noticiário trata o lançamento como se fosse a chegada da penicilina nos sertões. Repare na moldura: não se celebra a engenharia, celebra-se a fuga. Fuga do ônibus que não chega, fuga do aplicativo que cobra surge a cada chuvisco, fuga do posto que sangra o trabalhador antes mesmo do almoço. O texto promocional confessa o que a propaganda oficial tenta esconder: o brasileiro médio precisa de um veículo magro porque foi posto numa dieta forçada de combustível caro, transporte público sucateado e renda comida pela impressora de dinheiro.

Vamos ao silogismo, que é vacina contra encantamento. Se um trabalhador precisa de dois empregos para pagar o tanque, e se a única alternativa viável passa a ser uma motocicleta cento e dez cilindradas exposta ao tempo, então o suposto progresso material da última década é ficção contábil. Conclusão inevitável, e desconfortável: o que chamam de inclusão é, na prática, rebaixamento gerenciado. O sujeito que sonhava com um carro popular nos anos noventa hoje comemora rodar de capacete sob garoa porque o pacote tributário, a inflação acumulada e o cerco regulatório transformaram o automóvel em artigo de luxo. Aplaudir essa transição é como aplaudir o náufrago por aprender a nadar.

Siga o dinheiro, que é onde a verdade dorme. Cada litro de gasolina vendido nesse país carrega uma comitiva: tributo federal, tributo estadual, contribuição disso, contribuição daquilo, refinaria estatal que ora subsidia e ora repassa conforme o calendário eleitoral, distribuidora que repassa o repasse, e por fim o frentista, único sujeito da cadeia que efetivamente trabalha. Quando o governo de plantão anuncia redução de imposto sobre combustível, o que vemos é o ladrão devolvendo a carteira e exigindo gratidão pelo gesto. A motocicleta econômica não é vitória do consumidor, é cicatriz. Mede o tamanho da mordida fiscal pelo tamanho da renúncia material que o trabalhador foi obrigado a aceitar.

Há quem diga que economia de combustível é virtude ambiental, e aqui o sofisma chega com guirlanda. A mesma burocracia que asfixia o setor produtivo com normas, selos, certificações e contribuições compulsórias é a que pousa de salvadora do planeta vendendo a frugalidade involuntária como consciência ecológica. É o velho truque dos impérios decadentes: quando não conseguem mais entregar pão, distribuem narrativa. Roma quebrada virou Roma cristianizada, União Soviética sem comida virou paraíso operário, e o Brasil sem mobilidade vira potência sustentável movida a cento e dez cilindradas. Mudam os figurinos, o teatro é o mesmo.

A pergunta que ninguém faz no horário nobre é simples e brutal. Quem ganha com um país cujo sonho de consumo encolheu até caber numa garupa? Ganha o fabricante que vende mais unidades de margem apertada porque o ticket maior morreu. Ganha o aplicativo de entrega que terceiriza risco para entregadores sem direito nenhum, pedalando ou pilotando no asfalto fervendo. Ganha o político que precisa de uma população endividada, dependente e ocupada demais sobrevivendo para fiscalizar orçamento secreto. Perde o pai de família que outrora levava os filhos à praia no fim de semana e hoje calcula se o desvio até a padaria compensa o litro queimado. Perde o filho que cresce achando normal que mobilidade urbana seja jogo de azar contra a chuva.

O lançamento da motocicleta econômica é, no fim das contas, um termômetro enfiado debaixo da língua da república. A febre está alta, o paciente está magro, e o médico oficial receita mais do mesmo remédio que adoeceu o organismo. Comemorar quarenta e oito quilômetros por litro num país continental de estradas esburacadas é o equivalente moderno a festejar a chegada do trigo na cidade sitiada. Bom que veio, mas convém perguntar quem levantou o cerco, quem cobrou pedágio na entrada e quem lucra mantendo as muralhas de pé. Enquanto não fizermos essa pergunta em voz alta, seguiremos batendo palma para a própria mordaça, convencidos de que o aperto na garganta é abraço de mãe.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.