Há algo de profundamente revelador no espetáculo de um país de mais de duzentos milhões de habitantes descobrindo que seus cidadãos preferem confiar em vendedores de poções filmados com celular de segunda mão a procurar a rede pública de saúde. A imprensa internacional chama o fenômeno de boticário algorítmico, como se a tecnologia tivesse inventado a charlatanice, quando na verdade apenas digitalizou um mercado que floresce sempre que o monopólio estatal da saúde se prova incapaz de entregar aquilo que promete há décadas em discursos de posse. O nigeriano comum não acorda de manhã desejando beber raiz fermentada misturada com mel duvidoso; ele acorda sabendo que a consulta no hospital público demora meses, que o medicamento do programa oficial sumiu da prateleira, e que o atendimento privado custa o salário inteiro de quem ainda tem salário.

A narrativa oficial, repetida em cadeia pela Organização Mundial da Saúde e seus satélites bem remunerados, sugere que o problema é a falta de regulação, a ausência de fiscalização, a urgência de uma agência mais robusta, mais cara, mais armada de poder de polícia. É sempre a mesma receita servida em qualquer país tropical onde o sistema público desaba: a solução para o fracasso do Estado é mais Estado, financiado por mais imposto, gerido pelos mesmos burocratas que produziram a escassez original. Ninguém nos relatórios de Genebra se pergunta por que, em um país com tanta riqueza petrolífera evaporada em palácios presidenciais, o cidadão precisa apelar para um curandeiro digital quando sente uma dor no peito.

Siga o dinheiro e a fotografia muda de cor. A indústria farmacêutica multinacional perdeu há tempos o mercado africano de baixa renda porque seus preços, inflados pelo cartel das patentes garantido por tratados internacionais, simplesmente não cabem no orçamento de quem sobrevive com poucos dólares por dia. O vácuo deixado por essa exclusão regulatória, criada por leis escritas em Washington e impostas via acordos comerciais, é ocupado naturalmente por qualquer um disposto a oferecer algo barato, acessível, palpável. Quando o remédio legal custa o equivalente a duas semanas de comida, o chá milagroso vendido por trezentos nairas vira escolha racional, ainda que letal. O verdadeiro escândalo não está no vendedor de elixir, está nas estruturas internacionais que tornaram o medicamento real inacessível a quem mais precisa.

Há um padrão histórico aqui que merece atenção. Na Europa medieval, sempre que a Igreja monopolizava o conhecimento médico e o cobrava em dízimo, multiplicavam-se os boticários clandestinos, as bruxas das aldeias, os vendedores de relíquias curativas. Na Inglaterra vitoriana, quando a medicina oficial se tornou clube fechado de cavalheiros titulados, explodiu o mercado de tônicos patenteados cheios de morfina e cocaína vendidos como cura para tudo. O surto nigeriano de receitas virais não é anomalia tecnológica, é manifestação contemporânea de uma lei sociológica antiga: onde o acesso oficial se fecha por preço, corrupção ou ineficiência, o mercado paralelo prospera com qualquer coisa, perigosa ou não. Proibir o vídeo não cura o doente, apenas empurra a transação para os becos digitais menos visíveis.

O custo humano dessa engenharia é pago, como sempre, pelos que nunca aparecem nas estatísticas oficiais com nome e sobrenome. A mãe de Lagos que deu chá de folha para o filho com malária porque o posto de saúde fechou. O comerciante de Kano que vendeu a moto para pagar a cirurgia que o sistema público prometeu e nunca entregou. A jovem grávida que recorreu ao curandeiro de Instagram porque o pré-natal estatal exige fila de madrugada e suborno na recepção. Esses mortos não terão estátua, não comporão dossiês da OMS, não receberão um minuto de silêncio em fórum internacional. Servirão apenas de combustível estatístico para justificar a próxima rodada de financiamento bilionário a alguma agência multilateral que produzirá outro relatório elegante sobre a urgência de regular o que já está regulado até a asfixia.

O algoritmo é o bode expiatório perfeito porque não vota, não protesta, não exige explicação. Culpar a inteligência artificial pela morte de pacientes é tão conveniente quanto culpar a impressora pela Reforma Protestante. A tecnologia apenas escancara, em alta definição, a falência de um modelo onde o Estado se arroga o monopólio da saúde, fracassa em entregá-la, e depois persegue quem ousa preencher o vácuo deixado pela sua própria incompetência. Enquanto isso, o burocrata em Abuja escreve mais uma portaria, o consultor internacional fatura mais um diagnóstico, e o cidadão segue escolhendo entre morrer na fila ou morrer envenenado. Liberdade, na Nigéria de hoje, é o direito de escolher o próprio túmulo.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.