Audiências no Capitólio têm uma função ritualística que lembra as confissões públicas do império bizantino, onde dignitários esbravejavam contra a corrupção enquanto embolsavam o ouro do palácio ao lado. A mais recente sessão no Congresso americano seguiu o roteiro: políticos indignados desfilam números bilionários de fraude, desperdício e abuso estatal como se descobrissem, nesta terça-feira ensolarada, que a água molha. O projeto de lei apresentado como grande e belo promete reverter o que décadas de expansão estatal construíram, mas a aritmética do Leviatã raramente obedece retórica de campanha. Quem criou o monstro agora se apresenta como caçador de monstros, cobrando ingresso pelo espetáculo.

A contabilidade do estrago é conhecida de qualquer contribuinte que ainda acredite em recibos. Programas sociais com pagamentos a mortos, contratos federais com margens que fariam corar um agiota medieval, agências que consomem orçamentos militares inteiros para produzir relatórios que ninguém lê. O Medicare e o Medicaid sangram dezenas de bilhões anuais em faturamento fraudulento, números que o próprio governo reconhece com o desprendimento de quem admite ter esquecido o guarda-chuva. A Defesa nunca passou numa auditoria completa, o Pentágono é uma caixa-preta onde entram trilhões e saem explicações. E a resposta clássica do Estado diante da constatação do próprio roubo é pedir mais dinheiro para combater o roubo.

Segue o fio do dinheiro e a trilha ilumina os suspeitos de sempre. Empreiteiras que enriqueceram nas guerras do Iraque e do Afeganistão mantêm escritórios a poucos quarteirões do Capitólio, onde lobistas escrevem as cláusulas dos projetos que os parlamentares depois fingem ter lido. ONGs abastecidas por verba federal descobrem, a cada ciclo eleitoral, novas causas urgentes que exigem repasses emergenciais. Consultorias do tipo Beltway cobram milhões para entregar apresentações que qualquer estagiário construiria em três tardes. O desperdício não é um defeito do sistema, é o sistema funcionando exatamente como desenhado por quem o desenhou.

A ilusão reformista se repete a cada troca de guarda em Washington, e a História oferece o mesmo veredicto há séculos. Dioclesiano tentou conter a inflação romana por decreto e produziu desabastecimento. Os Bourbons franceses nomearam controladores gerais para auditar as próprias despesas e descobriram, tardiamente, que o povo tinha desenvolvido apetite por guilhotinas. Todo império tardio desenvolve uma camada burocrática tão espessa que o soberano já não enxerga o súdito, e o súdito já não reconhece o soberano. O que se chama hoje de waste and fraud é apenas o nome técnico para o parasitismo institucionalizado, o tributo moderno cobrado em nome de abstrações que ninguém mais consegue definir.

No meio dessa engrenagem, a vítima é sempre a mesma figura apagada das manchetes. O trabalhador americano que vê um quinto do salário evaporar em retenção federal antes mesmo de receber o contracheque. O pequeno empresário que enfrenta três agências regulatórias para abrir uma padaria enquanto gigantes farmacêuticas recebem subsídios para desenvolver o que já desenvolveriam de qualquer jeito. O aposentado cujo poder de compra é corroído pela impressão monetária que financia os déficits que a audiência do Congresso agora finge querer combater. O discurso muda de cor a cada quatro anos, a fatura permanece endereçada ao mesmo pagador.

Qualquer projeto que prometa arrumar o Estado sem reduzir drasticamente seu tamanho está fazendo terapia em paciente que precisa de amputação. Enxugar gelo com cobertor bordado em estrelas e listras continua sendo enxugar gelo, e o contribuinte continua sendo o cobertor.

Com informações da The Federalist. A análise e opinião são do O Algoz.