A cena tem um sabor quase cômico para quem acompanha o teatro das sanções. Depois de anos de listas negras, vetos de exportação, pressão diplomática sobre a Holanda para barrar a ASML, sobre Taiwan para conter a TSMC, sobre o Japão para alinhar restrições de equipamentos litográficos, a empresa que deveria estar morta na vala anunciou esta semana uma nova metodologia de desenho de chips que, segundo a própria, eleva o desempenho mesmo sem acesso à tecnologia de ponta de fabricação. O cadáver insiste em vender smartphones, montar data centers e desafiar a Nvidia no único mercado que realmente importa para o futuro próximo, o de aceleradores para inteligência artificial. Nada como uma boa proibição para forjar um competidor.
A história econômica é generosa em oferecer o mesmo enredo repetido em figurinos diferentes. O bloqueio continental imposto pela França napoleônica contra o comércio britânico não quebrou Londres, quebrou os portos do continente e financiou contrabandistas. O embargo americano contra Cuba transformou a ilha numa peça de museu mas não derrubou o regime que pretendia derrubar, apenas legitimou a narrativa de cerco eterno. As sanções contra o Irã criaram a indústria petroquímica nacional que antes não existia. As sanções contra a Rússia depois de 2022 produziram um rublo mais forte, uma agricultura mais autônoma e um eixo Moscou-Pequim que décadas de diplomacia ocidental haviam conseguido evitar. Toda vez que um império resolve isolar um rival pela porta da frente, esse rival sai pela porta dos fundos com clientes novos e fornecedores inéditos.
Quem ganha dinheiro com este circo? Em primeiro lugar, o complexo de consultoria de conformidade, esse parasita silencioso que cobra fortunas para ensinar empresas a navegar listas de entidades restritas que mudam toda semana. Em segundo, os lobistas de Washington contratados por gigantes do silício para conseguir licenças de exportação seletivas, porque a Nvidia continua exportando para a China versões castradas dos próprios chips, num arranjo onde o governo finge proibir e a empresa finge obedecer. Em terceiro, e este é o mais saboroso, os próprios engenheiros chineses, que receberam um cheque em branco do partido para construir do zero uma cadeia de suprimentos que ninguém estava disposto a financiar enquanto comprar fora era mais barato. A proibição funcionou como subsídio industrial maciço, pago pelo contribuinte americano através do imposto inflacionário que custeia o Departamento de Comércio e seus burocratas.
O consumidor comum, esse personagem que nunca aparece nos comunicados oficiais, paga a conta em três prestações. Paga primeiro como contribuinte, sustentando o aparato regulatório que produz as listas. Paga depois como cliente, vendo o preço dos eletrônicos subir porque a cadeia global se fragmentou em ilhas tecnológicas redundantes. Paga finalmente como cidadão de um mundo mais perigoso, onde duas potências agora correm em paralelo construindo arsenais digitais em vez de cooperar num mercado integrado que sempre foi, historicamente, o melhor antídoto contra a guerra. Comerciantes que prosperam juntos raramente bombardeiam um ao outro. Burocracias que se isolam mutuamente sempre acabam fardadas.
A narrativa oficial dirá que a segurança nacional exige o sacrifício. Dirá que o partido chinês roubaria a tecnologia, espionaria cidadãos, dominaria o futuro. Talvez tudo verdade. Mas a pergunta que ninguém faz no Capitólio é por que cinco anos de restrições, em vez de paralisar Pequim, produziram exatamente a autossuficiência que se queria evitar. A resposta é incômoda demais para os arquitetos da política industrial disfarçada de doutrina de segurança, porque admiti-la equivaleria a confessar que o planejamento centralizado, mesmo quando vestido de bandeira ocidental, fracassa pelos mesmos motivos que sempre fracassou em todos os lugares onde foi tentado. Pretender desenhar a geografia tecnológica do planeta a partir de um escritório em Washington é a mesma soberba de pretender fixar o preço do pão a partir de um escritório em Moscou.
O anúncio desta segunda é menos uma novidade tecnológica e mais um epitáfio para a ilusão de que canetadas substituem mercados. Enquanto isso, em Brasília, nossos estrategistas de ocasião continuam debatendo de que lado pular nesta nova guerra fria, sem perceber que o melhor lugar para um país periférico estar é exatamente fora dela, vendendo soja e minério para os dois, comprando chips dos dois, e rindo por último da estupidez alheia. Sanção é o nome que o derrotado dá à própria impotência antes de descobrir que a impotência ficou pior.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.