A cena se repete com a precisão de um relógio suíço financiado pelo Catar. Paris Saint-Germain conquista a Champions League diante do Arsenal, e a capital francesa amanhece com centenas de detidos, lojas saqueadas, carros queimando nos arredores dos Champs-Élysées e milhares de policiais mobilizados num teatro de operações que faria inveja a qualquer ocupação militar. O futebol, esse ópio dos povos que substituiu com vantagem o ópio anterior, mais uma vez serviu de gatilho para o ritual urbano em que o cidadão comum descobre que sua cidade pertence ao Estado, à torcida e aos contratos de patrocínio, nunca a ele.

Convém olhar para o time celebrado antes de chorar pelas vitrines. O Paris Saint-Germain não é um clube de bairro mantido por torcedores apaixonados; é um instrumento de soft power de uma monarquia do Golfo, comprado em 2011 pelo Qatar Sports Investments por uma fração do que hoje custa um único jogador do elenco. A camisa que os parisienses vestiam ontem para quebrar mobiliário urbano é, em essência, uma peça publicitária de um fundo soberano estrangeiro. A glória nacional francesa, simbolizada na Torre Eiffel iluminada, foi paga em petrodólares, e ninguém parece se incomodar com a estranheza de uma capital europeia confundir patriotismo com merchandising emiratino.

Enquanto isso, a conta da festa cai onde sempre cai. Cada policial mobilizado é financiado pelo padeiro de Belleville, pelo aposentado de Lyon, pelo pequeno comerciante de Marselha que já paga uma das cargas tributárias mais sufocantes do continente. Cada viatura incendiada será reposta com dinheiro público. Cada vitrine estilhaçada de um pequeno comércio, ao contrário, dificilmente será reposta por seguro algum, porque seguradoras tornaram-se especialistas em excluir cláusulas justamente para esse tipo de tumulto previsível. O lojista perde duas vezes: paga imposto para a polícia que não o protegeu e paga sozinho o prejuízo que o Estado deveria ter evitado.

Há algo de profundamente revelador no modo como governos europeus tratam essas explosões urbanas. A mesma máquina estatal que decreta toque de recolher contra protestos de agricultores, que disparou balas de borracha contra coletes amarelos durante meses, que multa quem ousa abrir um restaurante sem licença tripla, tolera com paciência quase paternal o saque coletivo desde que envolva uma bola e uma taça. A seletividade não é descuido, é cálculo. Reprimir torcida custa votos; reprimir trabalhador rural rende manchete favorável. O monopólio da violência se aplica conforme a aritmética eleitoral, nunca conforme o princípio.

O padrão histórico é antigo e cansativo. Roma entregava pão e circo aos plebeus enquanto o senado decidia guerras e impostos no andar de cima. Bizâncio teve suas facções de circo, os Verdes e os Azuis, que incendiavam Constantinopla nas mesmas noites em que o imperador fechava acordos comerciais distantes do escrutínio popular. A Paris de hoje apenas atualiza o roteiro: a multidão grita o nome de jogadores milionários enquanto a Assembleia Nacional aprova orçamentos militares, pacotes de ajuda externa e novos tributos que ninguém leu. A bola rola, o Estado cresce, o bolso encolhe.

No fim da noite, contados os presos e varridos os cacos, restará a mesma equação silenciosa de sempre. O xeque comemorará num iate ancorado em algum lugar do Mediterrâneo. O ministro do Interior dará entrevista sobre a firmeza da resposta policial. O prefeito prometerá câmeras adicionais. E o parisiense anônimo, aquele que não foi ao estádio, não invadiu loja alguma e jamais receberá um centavo de royalty pelo uso turístico de sua cidade, acordará amanhã para trabalhar e pagar a próxima edição do espetáculo. O troféu fica com o clube, a fatura fica com quem nunca foi convidado para a festa.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.