Existe uma certa elegância cínica na declaração de Péter Magyar. O homem que quer governar a Hungria, país membro da OTAN e fronteira viva com a Ucrânia em guerra, diz ao mundo que está disponível para conversar com Putin sobre o fim do conflito, desde que seja Putin quem disque o número. Não é diplomacia. É um reality show de postura moral, onde o candidato parece corajoso sem arriscar nada, parece pragmático sem comprometer nada, parece diferente de Orbán sem de fato romper com o conforto de não incomodar Bruxelas. A frase foi pensada para consumo eleitoral e funcionará perfeitamente, porque o eleitorado europeu já aprendeu a aplaudir gestos que custam zero.
A Rússia, por sua vez, ofereceu relações "pragmáticas" com um possível governo Magyar. A palavra pragmático, no vocabulário diplomático, significa exatamente o que parece: vamos negociar interesses sem fingir que temos valores. É um convite honesto, o que automaticamente o torna suspeito em qualquer chancelaria ocidental, onde a honestidade é considerada uma vulnerabilidade estratégica. O pragmatismo russo nesse contexto tem tradução direta: suspenda as sanções, reconheça implicitamente os ganhos territoriais, deixe de redirecionar armas pelo seu território, e a gente faz negócio. O dinheiro sempre encontra o caminho quando a retórica finalmente cansa.
Enquanto Magyar afina o discurso e a Europa debate o tom correto para dialogar com Moscou, o custo da guerra continua sendo pago por quem não tem lobista. Cada míssil disparado saiu de uma fábrica cujas ações subiram nos últimos dois anos. Cada contrato de fornecimento de munição tem um nome numa diretoria e um bônus no fim do trimestre. Cada conferência de paz cancelada é, para determinados setores industriais, mais alguns meses de receita garantida. Não é teoria. É contabilidade. Os relatórios financeiros das principais contratadas de defesa norte-americanas e europeias são públicos, disponíveis para qualquer um que prefira ler números em vez de comunicados de imprensa. A guerra na Ucrânia foi, entre outras coisas, o maior ciclo de expansão do setor de defesa desde o Afeganistão, e o Afeganistão durou vinte anos.
A Hungria ocupa nesse tabuleiro uma posição singular. Orbán passou anos sendo o personagem inconveniente das cúpulas europeias, o único que insistia em manter canais abertos com Moscou, o único que vetava sanções com regularidade suficiente para irritar Berlim e Paris. Parte da Europa o odiava por isso. A outra parte, em silêncio, ligava para Budapeste quando precisava de um recado entregue sem deixar impressão digital. Magyar prometeu ser diferente de Orbán em estilo e forma, mas sua declaração sobre Putin revela que, no fundo, o espaço que a Hungria ocupa na geopolítica europeia não muda com eleição. Pequenos países próximos a grandes conflitos não escolhem seu papel no tabuleiro. Eles o herdam.
O que a declaração de Magyar expõe, sem querer, é o estado real do debate sobre paz na Europa: ninguém quer ser o primeiro a falar. Falar primeiro com Putin é risco político. Falar depois é covardia coberta por protocolo. Então todos esperam que o outro disque, enquanto os mortos se acumulam com a pontualidade de quem está cumprindo metas trimestrais. O soldado ucraniano que morre nessa semana não morreu por democracia nem por soberania. Morreu porque nenhum líder europeu calculou que o custo político de pegar o telefone era menor que o custo humano de não pegá-lo. Magyar ao menos foi honesto sobre o cálculo. Atendo se ligar. Não ligo primeiro. É a metáfora perfeita para uma Europa que quer a paz com a mesma intensidade com que quer não ser responsabilizada por ela.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.