O Citi acaba de revisar para cima sua projeção da taxa básica de juros, e o pregão reagiu como sempre reage quando alguém finalmente coloca no papel o que todo mundo já sabia: o Banco Central vai ter que apertar mais, porque o Tesouro continua gastando como se dinheiro brotasse em árvore. O Ibovespa derrete, o dólar engorda, e os analistas de plantão correm para culpar o conflito no Oriente Médio, como se foguete em Tel Aviv fosse o motivo de o brasileiro pagar a maior taxa real de juros do planeta. Não é. A guerra lá fora é o pretexto; o desastre fiscal aqui dentro é a causa.
Olha, é preciso entender o mecanismo elementar que o noticiário insiste em esconder atrás de gráficos coloridos. Quando um governo gasta mais do que arrecada, ele se financia emitindo dívida; quando a dívida cresce a ponto de assustar quem compra os títulos, o governo precisa oferecer juro maior para convencer alguém a continuar emprestando. Esse juro maior é exatamente a Selic que o Citi acabou de reprojetar. Quer dizer, não existe Selic alta por capricho de banqueiro central; existe Selic alta porque o Planalto, o Congresso e o Supremo combinaram entre si que o orçamento é um bufê livre e o contribuinte é o caixa.
E aí entra o teatro do Oriente Médio como bode expiatório perfeito. É confortável, é distante, é visual, dá manchete bonita com fumaça e tanque. Mas me diz uma coisa: por que países com fundamentos fiscais decentes absorvem o mesmo choque geopolítico sem ver sua moeda virar pó e seus juros explodirem? A resposta é incômoda demais para sair na primeira página: porque eles não construíram, ao longo de três décadas, uma máquina de redistribuição clientelista que precisa ser alimentada todo mês com mais imposto, mais dívida e mais inflação reprimida. O Brasil construiu. E agora paga.
Siga o dinheiro, que é o exercício mais saudável que se pode fazer em economia. Cada ponto percentual a mais na Selic significa dezenas de bilhões a mais em despesa financeira pública, pagos com o seu imposto, transferidos para quem detém os títulos da dívida, que são majoritariamente grandes bancos, fundos e investidores institucionais. Quer dizer, o pobre que paga ICMS embutido no pão, no botijão e na energia elétrica está, na prática, subsidiando o rentista que comprou LFT no home broker. E o discurso oficial chama isso de combate à inflação. Combate, sim, mas dos sintomas que o próprio governo criou ao imprimir, gastar e indexar.
O mais sintomático é a postura do investidor estrangeiro. Ele não está fugindo do Brasil porque tem medo do Irã; ele está fugindo porque olha para o arcabouço fiscal que já furou antes mesmo de ser testado, para o STF legislando, para o Congresso comprado por emenda Pix, e conclui o que qualquer dona de casa concluiria com metade da informação: este é um lugar onde a regra muda no meio do jogo, onde o contrato não vale, onde a propriedade é refém da próxima medida provisória. Capital é covarde e tem boa memória. Voa para onde é tratado com respeito e ignora o resto.
Enquanto isso, a imprensa econômica seguirá publicando gráficos sobre a guerra, entrevistando estrategistas que falam em "aversão a risco global" e tratando a alta do dólar como fenômeno meteorológico, algo que cai do céu sem culpados. É a forma sofisticada de mentir sem mentir, narrar sem explicar, informar sem revelar. O fato concreto é mais simples e mais brutal: o Brasil tem juro alto porque tem governo grande, tem dólar caro porque tem moeda fraca, e tem moeda fraca porque tem instituição podre. O resto é fumaça, literal e metafórica, vinda de um deserto a dez mil quilômetros daqui que serve, muito convenientemente, para esconder o incêndio que arde no Planalto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.