O pregão desta semana se abriu com aquele ritual quase litúrgico em que mesas de operações fingem que estão precificando a paz mundial. Ibovespa sobe, dólar oscila, juros futuros estremecem, e a justificativa oficial é que "as negociações no Oriente Médio guiam o humor do mercado". Tradução honesta: ninguém faz a menor ideia do que vai acontecer amanhã, então qualquer manchete serve de desculpa para mover bilhões de reais de bolso para bolso. O mercado brasileiro virou um adolescente emocional que chora com tweet de chanceler e ri com vazamento de reunião em Genebra.

Some-se a isso o folclore dos "dados do BC" como bússola dos investidores. Que dados? Os mesmos boletins Focus em que cem economistas de banco escrevem o que o BC quer ler para que o BC publique o que eles querem ouvir, num eterno carrossel de profecias autorrealizáveis. É a versão tropical do ouroboros monetário: a serpente devorando o próprio rabo enquanto a Selic engole o investimento produtivo e cospe carry trade para o capital especulativo. Ninguém na padaria de Pirituba sente o "alívio" do diferencial de juros, mas o fundo soberano de Cingapura agradece.

Quando se segue o dinheiro, a coisa fica mais clara. Cada centésimo de oscilação cambial transfere patrimônio de quem importa insumo para quem opera no after market de Nova York. Cada ata do Copom redistribui renda do contribuinte endividado para o detentor de título público. E o sujeito que paga essa conta, sempre o mesmo sujeito, continua sendo informado pelo noticiário de que "o mercado reagiu bem", como se o mercado fosse uma entidade autônoma e não o nome elegante para o cartel de cinco bancos que decide o preço do seu pão de manhã.

O Oriente Médio, por sua vez, é o curinga perfeito da narrativa. Sempre serve. Petróleo sobe? Tensão geopolítica. Petróleo cai? Negociações avançam. Bolsa sobe? Otimismo com cessar-fogo. Bolsa cai? Receio de escalada. É a astrologia financeira do século vinte e um, com a vantagem de não precisar de carta natal, basta um telex da Reuters. O cidadão comum, que jamais viu um barril de óleo na vida, paga a conta na bomba e ainda agradece pela "racionalidade dos fundamentos".

O detalhe que ninguém quer enxergar é o óbvio escondido em plena luz. A economia brasileira não é refém de Teerã, de Tel Aviv ou de Washington. É refém de uma máquina interna que imprime moeda, fixa juros, taxa o produtivo, subsidia o amigo e regula o concorrente do amigo. Todo o resto é cortina de fumaça importada para distrair o eleitor da verdadeira fonte da sua pobreza, que mora em Brasília, não em Gaza. Enquanto o brasileiro acreditar que sua dor está no mapa do mundo, jamais olhará para o mapa do orçamento federal, que é onde ela realmente foi assinada.

O mercado de hoje, como o de ontem e o de amanhã, é apenas o termômetro de uma febre que ninguém quer diagnosticar. Tratar sintoma com manchete é o esporte nacional. A cura exigiria coragem de admitir que liberdade econômica e moeda forte não são conquistas de comitê, mas consequência de governo pequeno. E governo pequeno, no Brasil, é heresia tão grande que nem o noticiário ousa pronunciar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.